Portugal prepara-se para testar imunidade da população ao coronavírus

Definir a “altura ideal” para submeter a população aos testes de imunidade é crucial, segundo Graça Freitas, porque há que dar tempo para que o corpo produza anticorpos. A Alemanha prepara-se para começar a testar a população já em meados de Abril.

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Dentro de algumas semanas, a corrida aos testes de despiste deverá ser substituída pela corrida aos testes de imunidade Paulo Pimenta (arquivo)

Portugal poderá em breve juntar-se a países como a Alemanha e o Reino Unido que estão a estudar a emissão de “certificados de imunidade” que poderão permitir aos seus detentores retomar a vida laboral, social e familiar, depois de terem comprovadamente adquirido imunidade face à covid-19. A directora-geral da Saúde, Graça Freitas, adiantou este sábado que o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge “já está a entrar numa fase piloto de estudos serológicos” para definir como e quando é que os respectivos testes de imunidade serão feitos.

“A imunidade é uma coisa que leva tempo a instalar-se, ou seja, entre a data de infecção e a data em que o nosso corpo começa a produzir anticorpos visíveis há um tempo que temos mesmo que esperar”, explicou Graça Freitas, lembrando que, em Portugal, “a doença começou há cerca de um mês e a maior parte dos doentes ainda está em fase de recuperação”. Logo, uma da questões cruciais é definir qual a “altura ideal” para começar a testar a imunidade da população. “Se for demasiado precoce pode não haver ainda anticorpos”, enfatizou, para precisar que tais testes, que começarão por ser feitos numa amostra da população, terão provavelmente de ser repetidos mais tarde “porque não basta testar uma vez: é preciso perceber se a imunidade é duradoura ou não”.

Sabendo-se que muitos dos portadores do SARS-Cov-2 permaneceram assintomáticos, os testes de detecção dos anticorpos que se formam após a infecção são a única forma de saber quem pode passar incólume se voltar a contactar com o vírus. Por estes dias, instituições como o Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica e o Instituto Gulbenkian de Ciência estão também a trabalhar no desenvolvimento destes testes serológicos que serão determinantes para sopesar o regresso à normalidade sem que isso implique correr riscos desnecessários de reinfecção.

Na Alemanha, cuja curva de mortes associada à covid-19 se tem mantido em níveis baixos (num universo de cerca de 92 mil infectados, apenas 1295 morreram, o que aponta para uma taxa global de letalidade na ordem dos 1,4, o que se explicará devido a uma política de testagem de despiste generalizada), o processo segue aparentemente mais adiantado. E os cientistas já falam abertamente na emissão destes “certificados de imunidade” que permitirão que os trabalhadores retomem o trabalho, sobretudo os empregados em sectores tidos como vitais para a economia. Segundo as previsões, o estudo para apurar a percentagem de alemães que adquiriram imunidade face à covid-19 deverá avançar em meados de Abril e implicará análises ao sangue de 100 mil voluntários em busca da presença de anticorpos da doença. O objectivo é repetir as análises em intervalos regulares e numa amostra cada vez maior da população para avaliar a progressão da pandemia. Desse modo, tornar-se-á mais fácil decidir quando podem, por exemplo, reabrir as escolas, sem correr o risco de novos contágios em massa, conforme adiantou o epidemiologista alemão Gerard Krause, citado pela revista Der Spiegel. Note-se, porém, que da parte do governo liderado por Angela Merkel não há ainda qualquer confirmação quanto à emissão de tais “passaportes de imunidade”.

Certificados de imunidade: “Medida razoável mas provisória"

De resto, por se tratar de uma nova variante do coronavírus, subsistem ainda muitas dúvidas quanto à duração da imunidade. O epidemiologista britânico Peter Openshaw admitiu recentemente que, no pior dos cenários, as pessoas que foram infectadas e recuperaram, tendo desenvolvido os anticorpos da doença, deverão ficar parcialmente imunes ao vírus durante cerca de três meses. “Pode ser que este coronavírus cause uma resposta imunitária bastante robusta, duradoura e protectora durante muito mais tempo, mas a verdade é que ainda não sabemos, porque estamos perante um novo vírus”, declarou, citado pelo The Guardian, e ajudando assim a perceber por que considera que tais “passaportes de imunidade” são uma medida “razoável mas provisória” e que os seus detentores terão de ser mantidos sob escrupulosa vigilância para assegurar que não serão reinfectados.

“Na monitorização subsequente será importante determinar se estas pessoas que retomaram a circulação normal estão de facto protegidas”, reforçou, numa altura em que o Reino Unido parece igualmente preparado para começar a testar a imunidade da sua população. O risco apontado pela comunidade científica é que muitos sectores da população, nomeadamente os jovens que se estão a endividar por terem ficado sem trabalho, procurem ficar infectados na esperança de, uma vez recuperados, poderem retomar o trabalho mais rapidamente. “Seria um comportamento altamente arriscado”, alertou Peter Openshaw, lembrando que “há riscos de a doença degenerar em complicações severas”. Logo, o mais ajuizado será sempre “manter o distanciamento social até que haja uma vacina”.

Estes avisos não impediram que, na quinta-feira, o titular da pasta da Saúde no Reino Unido, Matt Hancock, anunciasse em conferência de imprensa que o país está já a avaliar a possibilidade de avançar com estes “certificados de imunidade”. “As pessoas que tiveram a doença e desenvolveram os respectivos anticorpos e, portanto, adquiriram imunidade, poderão demonstrar isso e voltar logo que possível à sua vida normal”, sustentou o governante, reconhecendo, embora, que não há ainda evidência científica quanto à forma e à altura ideal para começar a concretizar esta ideia. Quando assim for, garantiu, o país terá centenas de milhares de testes disponíveis para a população.