All hands on deck!

Testemunho de Guilherme Macedo, director do Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, Porto. “É neste ponto que nos encontramos: sem querer ser heróis, nem sequer querer merecer esses epítetos. Apenas querer ser lúcidos, assertivos, criativos e generosos. Nem heróis nem semideuses, tão-só proceder simplesmente e totalmente como humanos.”

Quando no início de Janeiro o mundo (ocidental, confortável e algoritmizado) olhou de soslaio para uma breve e longínqua sugestão de perigo, ficou inexoravelmente traçado o seu destino, então inimaginável: tratava-se da autoridade sanitária chinesa (quem?) a fechar um mercado (como?) na exótica capital da província de Hubei (onde?), na quase impronunciável cidade de Wuhan... criou-se de imediato a subjectiva e ilusória sensação de se tratar de um fenómeno local, em área remota, talvez inóspita... detalhe importante submerso nas entrelinhas: população de 11 milhões de habitantes. Como nós.

Como acolhemos, especificamente na nossa área profissional de intervenção na saúde digestiva, a violência desta nova realidade? No nosso serviço, no nosso hospital, nas nossas sociedades científicas, nos palcos internacionais que partilhamos?

Os nossos colegas gastrenterologistas americanos, numa reacção muito mais rápida do que as suas autoridades, definiram pragmaticamente as regras: “All hands on deck!”

Dito de outra maneira: “Estamos prontos para tudo!” Até para sairmos da nossa área de conforto, não prescindindo da intrínseca complexa diferenciação tecnológica e clínica, mas sobretudo para acrescentar músculo, em suplemento arrojado de energia, às trincheiras (linhas da frente e mais recuadas) em que o vírus da covid-19 nos barrica. E ao mesmo tempo, numa desenfreada azáfama, reformular todo o atendimento em consultas virtuais, priorizar os procedimentos endoscópicos, reapetrechar as unidades técnicas. Com um enorme orgulho, no entanto, pudemos anunciar-lhes: já o fizemos. “Done, already.” Simplesmente porque tudo foi sinalizado repentina mas atempadamente pela estrutura sanitária do nosso país, porque a administração hospitalar antecipou o caos, porque os serviços clínicos responderam em uníssona responsabilidade.

Em poucos dias, a rede portuguesa de gastrenterologistas apertou a malha, partilhou toda a informação disponível, toda a organização desejável, todas as precauções recomendadas. Uma especialidade médico-cirúrgica que repentinamente também se descobre no olho do furacão, com um vírus de apetência especial e dramática pelas células do revestimento de todo o tubo digestivo, que se manifesta como queixas digestivas em quase metade dos doentes que infecta, que suscita enorme preocupações de segurança para os profissionais pelo risco de exposição, pelo sortilégio e desespero de poderem, eles próprios, a partir de certa altura, ser os focos de transmissão.

Como se não bastasse, fomos submergidos por todo o tipo de informação: rapidamente desapareceram das notícias as desventuras de Isabel dos Santos, do Rui Pinto, do racismo, da eutanásia (longe, tão longe...), e passámos a estar letrados no novo léxico dos clusters, da contingência, da mitigação, dos coronabonds, do código verde do Health Care... Olhamos incrédulos para as bombas de contágio lançadas pelo Atalanta-Valência, Liverpool-Atlético, para Westport (Connecticut), para o Mardi Gras de Nova Orleães... Inundam-se os nossos computadores de consecutivas e novas guidelines, webinars, de estatísticas assustadoras, e os media esmagam-nos freneticamente com a contabilidade mórbida: exilamo-nos em nós próprios com tanta sobrecarga cognitiva. Os corredores, vazios, tornam-se mais claustrofóbicos. Só nos olhamos nos olhos...

É neste ponto que nos encontramos: sem querer ser heróis, nem sequer querer merecer esses epítetos. Apenas querer ser lúcidos, assertivos, criativos e generosos. Nem heróis nem semideuses, tão-só proceder simplesmente e totalmente como humanos. Sim, pagamos um preço tremendo por esta vertiginosa corrida contra o tempo: permanentemente a reestruturar, coligir e purificar a informação, reinventar recursos, redefinir hábitos, hierarquizar escolhas... e apelar à energia interior individual e grupal para redesenhar a nossa missão de servir. Sem espaço para coragens desordenadas nem altruísmos inconsequentes.

É assim esta equipa: sobrevive e sobreleva-se. Inspira-se e agita-se. Anima-se e atreve-se. É a nossa marca.