Cada infectado contagiou “menos de duas pessoas” em média. É menos do que noutros países

Portugal vai, em conjunto com outros países, efectuar testes para a detecção de anticorpos que se geram após a infecção, o que permitirá perceber qual a proporção da população que já adquiriu imunidade. Mas o projecto ainda está em fase piloto.

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Com os dados disponíveis a permitir perceber que cada infectado contagiou até 16 de Março, em média, menos de duas pessoas no país, e apesar de a progressão do surto em Portugal se estar a revelar mais lenta nos últimos dias, ainda é arriscado avançar com qualquer data para o retomar da normalidade. Cautelosas, tanto a ministra da Saúde – que comparou a situação que estamos a viver em Portugal a uma “longa maratona” –, como a directora-geral da Saúde reforçaram este sábado os apelos à responsabilidade e à colaboração dos portugueses. “Temos de continuar e cumprir as medidas de contenção e de mitigação”, pediu a ministra Marta Temido na conferência de imprensa diária para balanço da situação epidemiológica do surto de covid-19 em Portugal.

mais 638 casos confirmados e mais 20 óbitos a registar, os casos positivos ultrapassaram este sábado a barreira dos 10 mil, mas o ritmo do crescimento está a abrandar nos últimos dias. Ainda é muito cedo, porém, para pensar em suavizar as restrições decretadas pelo Governo. Apesar da “esperança” e da “expectativa” que o aplanar da curva epidémica em Portugal podem gerar, não se vê ainda uma luz “ao fundo do túnel”, enfatizou Marta Temido. E ninguém se atreve a avançar com uma data para o regresso à vida normal. Esta é uma questão “muito complexa” e é necessário analisar o cenário “dia a dia, dado a dado, medida a medida”, justificou a directora-geral da Saúde, Graça Freitas.

Os dados indicam que o número médio de contágios causado por cada pessoa infectada foi de “1,81 entre 21 de Fevereiro e 16 de Março”, revelou a ministra. Isto significa que cada infectado contagiou em média “pouco menos de duas pessoas”, o que indica que o surto estava então a crescer mas a um ritmo inferior ao que se tem verificado noutros países. “Estávamos com um número de casos secundários resultantes de um caso infectado já inferior àquilo” que já tinha sido observado antes, reforçou Marta Temido. 

O que estes dados significam é que, durante o período referido, foi estimado que cada 10 infectados deram origem, em média, a 18 novos casos. Apesar de todas estas estimativas estarem sujeitas a “um elevado grau de incerteza”, os dados demonstram que “há um resultado inequívoco” dos esforços que têm vindo a ser feitos pela população, disse a governante.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem falado num número médio de contágios causado por cada pessoa infectada que ronda os 2,5. Mas há outros estudos e estimativas. Um desses estudos publicado no Journal of Travel Medicine já apontava no final de Fevereiro para uma estimativa de 3,28. Um outro trabalho publicado na Science dedicado ao caso da China indicava que o esforço inicial de contenção da doença reduziu este índice de 2,38 (entre 24 de Janeiro e 3 de Fevereiro) para 1,36 (24 de Janeiro a 8 de Fevereiro). Sobre o caso crítico de Itália, um estudo de uma equipa de cientistas italianos divulgado na semana passada na plataforma de pré-publicações de acesso aberto medRxiv revelou que este índice na Lombardia (Norte de Itália) era de 4 até 8 de Março.​

Mas não se pode baixar a guarda, insiste Marta Temido. Numa intervenção emotiva, a ministra lembrou que a pandemia “tem alterado profundamente as nossas rotinas” e as “relações laborais e afectivas” e que é natural que todos tenhamos medo. “Mas este é o momento para equilibrar o medo e a coragem. A coragem de ficar em casa, de continuar a ajudar os outros desde que devidamente protegidos, e a pedir ajuda quando precisamos dela”.

Vão ser distribuídos 260 mil testes

Numa altura em que muitos testes laboratoriais para rastreio de covid-19 têm sido adiados por falta de material, Portugal prepara-se já para avançar com outros países na detecção da imunidade das pessoas que já tiveram contacto com o novo coronavírus, revelaram as duas responsáveis na conferência de imprensa. Quem está a esperar e desesperar pelos testes de rastreio da infecção pelo novo coronavírus, vai poder fazê-los em breve: já estão em condições de ser distribuídos 80 mil zaragatoas (uma espécie de cotonetes para retirar amostras das fossas nasais) e 260 mil testes para colmatar a falta que se tem sentido tanto nos hospitais públicos como nos centros privados, anunciou a ministra. 

Depois da avalanche de pedidos que se verificou desde que, no dia 26 de Março, a Direcção-Geral da Saúde alargou aos centros de saúde a prescrição destes testes e a todos os que têm pelo menos um sintoma da doença, muitos dos locais onde o rastreio estava a ser realizado começaram a adiar estes rastreios. A falta de testes tem sido uma das questões que mais controvérsia tem gerado, mas Marta Temido indicou que, entre 1 de Março e 1 de Abril, foram realizados já 88.497.

Outra boa notícia é a de que Portugal vai, em conjunto com outros países, e através do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, efectuar testes para a detecção de anticorpos que se geram após a infecção, o que permitirá perceber qual a proporção da população que já adquiriu imunidade. O projecto ainda está em fase piloto mas é a esperança para os que já tiveram contacto com o vírus e ganharam imunidade poderem retomar a sua vida normal.

“A doença em Portugal começou há cerca de um mês, portanto, a maior parte dos nossos doentes ainda está em fase de recuperação. Vamos ter de perceber qual é a altura ideal para fazer o teste, numa amostra da população”, explicou Graça Freitas.

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