Palavra de Viajante: a livraria de viagens pede “ajuda para resistir à crise”

Está nas mãos dos viajantes e de todos os que gostam de literatura: a livraria Palavra de Viajante fechou portas mas quer reabri-las. Até lá, pede aos leitores que comprem livros e vouchers. Desde 2011 que é uma casa das viagens em Lisboa.

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RITA CHANTRE / PUBLICO
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Aberta desde 2011, o  fecho físico, temporário, aconteceu a 19 de Março. “Estivemos até à última, mas a partir de certa altura percebemos que não podíamos continuar. Ainda abrimos nessa manhã, havia pessoas que tinham ficado de ir buscar livros. Faz hoje precisamente duas semanas”, conta Ana Coelho. O apelo chegou às redes sociais cinco dias depois, a 24 de Março. “Convidamos quem quiser ajudar a Palavra de Viajante a resistir à crise a adquirir um ou mais vouchers de 20€, que reverterão em livros”, lê-se na página de Facebook da Palavra de Viajante, a livraria lisboeta que se orgulha de ser uma das poucas (se não a única) no país totalmente dedicada a viagens.

O objectivo, explica Ana Coelho, uma das proprietárias, “é fazer face às necessidades de tesouraria mais imediatas, as facturas que temos de pagar, a renda, as despesas fixas que se mantêm. Temos de pagar à pequena editora, à pequena distribuidora... É uma cadeia”. “Se alguém der agora é como um investimento”, avalia, ainda que, esclarece, os livros possam ser enviados imediatamente. “Tenho ido regularmente à livraria para enviar livros”, diz, embora a maioria das pessoas que adquiriram os vouchers esteja a adiar a compra para depois, para a reabertura, quando o poderão fazer pessoalmente.

“Somos uma livraria de proximidade, com atendimento personalizado”, afirma Ana Coelho, “e as pessoas também viajam pelo espaço” (“pequeno, entre o acolhedor e o íntimo, num cotovelo da alfacinha e legislativa Rua de São Bento”, escrevia-se na Fugas em 2011, pouco mais de uma semana depois da abertura da livraria). Perdem-se entre as lombadas dos livros, pedem sugestões. “Para este tipo de livraria”, refere Ana, “a porta fechada é muito difícil”. Neste caso, tão pouco há venda online e o próprio site está em manutenção. “Estávamos no processo de pensar o que queríamos para o site novo”, diz, “mas a venda online nunca esteve nas nossas intenções. Dependemos muito do contacto, do input, das sugestões”.

Neste caso, quem quiser comprar o voucher e receber já os livros pode pedir os títulos específicos ou pedir sugestões. “Tento sempre personalizar”, refere Ana, “peço às pessoas para me dizerem do que gostam, pergunto quais foram os dois, três últimos livros que leram e tento aferir”.

“Sem estar a ver clientes é difícil”, reconhece Ana Coelho, mas “queremos é que as pessoas tenham livros para ler”. E que vão “com outra bagagem fazer as viagens”. Porque aqui entre guias e literatura de viagens há milhares de referências que ajudam os viajantes do futuro - ou aqueles que só viajam pelas páginas dos livros - “a perceber e a gostar mais dos diferentes locais”. A aposta é claramente na literatura de viagem, na literatura sobre lugares, “mesmo ficção, que explicam mais sobre a cultura, os costumes, as cidades”. “O guia é muito utilitário”, avalia, “por isso oferecemos complementos. Temos sempre escritor de determinado país ou um Prémio Nobel, que ajudam a compreender determinadas geografias”.

Por exemplo - para “pessoas que não têm medo de livros com muitas páginas” - A Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric, Nobel da Literatura em 1961. “Ele nasceu no que é hoje a Bósnia, mas era então o Império Austro-Húngaro e depois a Jugoslávia”, conta, “e neste livro conta a história da cidade de Visgrad, na fronteira entre a Bósnia e a Sérvia, que esteve durante séculos sob o domínio do Império Otomano. Este livro é extraordinário para entender a cultura da zona, o peso da herança otomana que ainda se sente, na comida, na maneira de vestir, nem falo da religião”. Ou A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendonza, que “acompanha o boom de Barcelona no século XIX com a construção do Eixample”.

Ao longo dos oito anos que leva de funcionamento, a Palavra de Viajante criou, nota, uma rede razoável de clientes - “não somos livraria de milhares” -, alguns já “mais amigos do que clientes”. Pessoas que vão uma vez por semana, uma vez por mês. E a mobilização ao apelo deixou Ana “sensibilizada”. “Responderam rapidamente. Foi muito gratificante e essa é mais uma razão para lutarmos por nos mantermos a funcionar”. 

Sugestões de leitura da Palavra de Viajante

Tempo de Dádivas - uma viagem a pé, de Patrick Leigh Fermor (Tinta da China)

Este é provavelmente um dos mais belos relatos de viagem alguma vez escritos. Nele, o autor inglês descreve a primeira parte do seu longo périplo a pé entre a Holanda e Istambul, iniciado em 1933, quando tinha apenas 19 anos - neste primeiro volume fica às portas Hungria. Leigh Fermor percorreu uma Europa que já não existe, primeiro assolada pela Segunda Guerra Mundial e, logo a seguir, pelo flagelo estalinista.

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A Invenção da Natureza - As Aventuras de Alexander von Humboldt, de Andrea Wulf (Temas e Debates)

Herdeiros do Iluminismo, diversos cientistas empreenderam ao longo do século XIX viagens de descoberta que ainda hoje moldam o nosso conhecimento da natureza e nos recordam que do intercâmbio de ideias e da luta contra a intolerância nascem os maiores feitos do ser humano, quer a nível intelectual quer a nível social e afectivo. O naturalista e grande viajante Alexander von Humboldt foi um deles. Escrita por Andrea Wulf, esta excelente biografia sobre um dos homens que mais influenciou Charles Darwin venceu o Costa Biography Award.

O Egipto e Outros Textos Sobre o Médio Oriente, de Eça de Queiroz (Relógio d’Água)

A 23 de Outubro de 1869, Eça de Queiroz, acompanhado do seu amigo, o conde Luís de Resende, partiu rumo ao Cairo, cidade que considerava ser ideal para a imaginação do europeu (“Constantinopla é quase europeia e imita Viena de Áustria. Damasco é exclusivamente síria. Alepo lembra a Suíça. O Cairo, esse, é original, é sarraceno.”). Cruza-se com Théophile Gautier no hotel, experimenta o forte café turco, maravilha-se com o espectáculo do sol a nascer e com as mesquitas cairotas, com a multidão ruidosa, as babuchas de pau no banho turco, o narguilé persa, o deserto ou o harém. A 17 de Novembro estão no Suez, para a inauguração do Canal. Com a habitual verve e bom humor, este é um livro menos conhecido do autor.

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Todos os Caminhos Estão Abertos, de Annemarie Schwarzenbach (Relógio d’Água)

Em 1939, a suíça Annemarie Schwarzenbach parte de casa dos pais, no seu Ford Roadster Deluxe, recém oferecido pelo pai, na companhia da amiga Ella Maillart. Destino: a Índia, via Balcãs, Turquia, Irão e Afeganistão. O texto reflecte a magia das paisagens áridas e a sua curiosidade pelos hábitos orientais. Um misto de jornalismo e poesia escrito por um “anjo devastado”, como lhe chamou Thomas Mann.

A Minha Família e Outros Animais, de Gerald Durrell (Presença)

Estas deliciosas memórias de infância do irmão mais novo do escritor Lawrence Durrell podiam ser o livro de cabeceira nestes dias mais cinzentos. Saturados do chuvoso Verão inglês e de dívidas impagáveis, a família Durrell (mãe e quatro filhos) muda-se para Corfu, na Grécia. Inspirado pela límpida e intensa beleza mediterrânica, Gerald descobre um fabuloso universo à sua espera, e cresce dentro dele um fascínio enorme pelo mundo vivo que o rodeia. Com o tempo, vão-se multiplicando os frascos, as garrafas e os tubos de ensaio repletos das mais estranhas formas de vida.

Ébano, de Ryszard Kapuscinski (Livros do Brasil)

O jornalista polaco, nascido numa cidade que hoje pertence à Bielorrússia, Ryszard Kapuscinski (1932-2007), cedo na sua carreira começou a viajar para reportar os eventos em locais como Kiev, Índia, Afeganistão e África, para onde se deslocou em trabalho pela primeira vez em 1957. Passa seis meses como correspondente na China, e regressa a África sempre que pode, por entre viagens à América Latina e Médio Oriente. Sobre África, afirma ser “um continente demasiado grande para poder ser descrito. É um verdadeiro oceano, um planeta independente, um cosmos variado e rico”. Este livro é um espelho dessas múltiplas identidades africanas e um dos melhores livros de jornalismo (e viagens) escritos sobre África.

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Full Tilt, de Dervla Murphy (Eland)

Quando fez dez anos, a irlandesa Dervla Murphy recebeu uma bicicleta e um atlas. Em poucos dias, estava a planear uma viagem à Índia. Aos 31, em 1963, fez-se finalmente ao caminho. Atravessou a Pérsia, o Afeganistão, os Himalaias e o Paquistão. Inspirador e bem-humorado, este é o relato de uma mulher que até bem recentemente continuou a viajar sozinha, sem receios, e sempre a despertar muito interesse em quem com ela se cruzou.

From the Holy Mountain, de William Dalrymple (Flamingo)

Usando o relato do monge bizantino João Mosco (550 – 619) como guia e inspiração, William Dalrymple refaz os passos daquele numa viagem das margens do Bósforo às areias do Egipto, em busca do pouco que ainda resta da comunidade cristã do Oriente. O livro, belíssimo, é provavelmente o melhor deste autor.

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Atlas d'un homme inquiet, de Christoph Ransmayr (Le Livre de Poche)

Recolha de 70 textos que esboçam um retrato do mundo tal com o escritor austríaco o percepcionou nas suas peregrinações, do Ártico aos trópicos, passando por todos os continentes e pelas ilhas mais isoladas. Prémio Jean Monnet de literatura europeia em 2015.Um livro belíssimo para ir lendo e relendo.

El sueño de África, de Javier Reverte (Debolsillo)

Este é já um clássico da literatura de viagens espanhola. Com muito humor e algum lirismo, Reverte narra a sua primeira grande viagem em África, misturando relato com história, os mitos da exploração e os dias da época colonial no Uganda, Tanzânia e Quénia. Nestas páginas, revivem os antigos reis africanos, os primeiros exploradores e os grandes escritores que descreveram África.