Eanes deixa apelo aos mais velhos: “Se necessário, oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos”

O antigo Presidente da República considera que Portugal deveria “ter usado as Forças Armadas mais cedo”, podendo assim proteger profissionais de saúde.

,Presidente de Portugal
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LUSA/João Relvas

Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito no pós-25 de Abril, apela a que os mais velhos dêem o exemplo na luta contra a pandemia de covid-19. “Nós os velhos, eu falo porque sou um velho, tenho 85 anos, (…) vamos ser os primeiros a dar o exemplo”, afirma, pedindo que fiquem em casa e que sigam as orientações. “E mais, quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos”, conclui, em entrevista à RTP.

A questão do ventilador tem levantado alguns debates sobre ética, como o mesmo recorda: “Em Itália e Espanha, e aqui se calhar também, o médico muitas vezes tem de escolher entre aquele a quem aplica o ventilador e aquele a quem não aplica. Aquele a quem pode proporcionar a vida e aquela a quem retirar a vida. É uma situação que não quereriam nunca estar a viver”.

O ex-Presidente da República considera que a crise será ultrapassada, mas que ainda há muito caminho pela frente. Levanta a questão das vacinas ainda por descobrir e, mais tarde, por produzir em quantidades suficientes e distribuir pelo mundo.

Por isso, considera que a crise só passa com união, “co-responsabilidade e solidariedade”. Segundo o general, o confinamento é antinatural pois “o homem é um ser social”, mas “nesta altura há que pensar menos no eu e mais no nós”. É preciso que as pessoas fiquem “em casa o tempo necessário”.

País devia “ter usado as Forças Armadas mais cedo”

Ramalho Eanes concorda com as medidas que estão a ser tomadas no país, porém, considera que, tendo em conta o Eestado de emergência, Portugal deveria “ter usado as Forças Armadas mais cedo porque elas estão ali para as situações de crise”. Segundo o general, assim seria possível proteger os profissionais de saúde, que considera “extraordinários”. No entanto, atenta que é “muito fácil dizer o que era melhor depois de as coisas terem acontecido”.

Para o antecessor de Mário Soares, a primeira linha de combate deveria ser constituída por política e forças de segurança, partidos, polícia, Forças Armadas e cidadãos e só depois entrariam os hospitais, para que estes “tenham capacidade de respirar” e para os seus recursos humanos não se esgotarem.

Ramalho Eanes pensa que “esta pandemia vai levar a que se repensem as funções do Estado”. “O Estado não pode ser um Estado mínimo, como se diz. O Estado tem de ser o Estado necessário e um Estado que não olhe apenas para a situação presente, para as eleições e para o resultado, mas olhe para o futuro e para o futuro da sua comunidade”.

Questionado sobre a possível nacionalização da TAP, Ramalho Eanes relembra que “a Europa tem uma história de nacionalizações”, portanto é “perfeitamente admissível e natural que venham a acontecer”. No entanto, quanto às consequências da crise, apela a que não se cometa o erro da Alemanha, que em 1930 “impôs uma política de rigor financeiro” que se tornou “uma situação catastrófica, uma situação social impensável e uma crise política que levou ao Nazismo”.

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