Diário da quarentena

A minha quarentena é especial. Passo metade do tempo com a minha avó

Testemunho de Benjamim, músico. “Maria Emília chega à hora do almoço, cumprimentamo-nos à distância, não damos aqueles beijinhos e abraços que sempre demos. Ela tem o sofá dela, eu tenho o meu.”

A minha quarentena é especial porque passo metade do tempo com a minha vizinha do 5.º andar – a minha avó. Espírito livre de 86 anos que ainda conduz e que passa a vida na rua. A minha avó nunca almoça nem janta em casa. A única maneira de a convencer a aceitar esta situação foi passar mais de metade do meu dia com ela. Não é ideal, estou sempre com medo de a infectar com este pesadelo que aterrou à nossa porta. Mas qual seria a alternativa? Deixá-la em casa sozinha durante três meses e esperar que não fosse à rua, que vivesse todo este caos sozinha?

A minha mãe está isolada com o meu pai, que tem uma saúde frágil – aquele ingrediente que torna o vírus mais assustador. Estamos todos a ajustar-nos devagar, tentando manter a calma e a normalidade o melhor que sabemos.

Maria Emília chega à hora do almoço, cumprimentamo-nos à distância, não damos aqueles beijinhos e abraços que sempre demos. Ela tem o sofá dela, eu tenho o meu. Vemos as notícias juntos, almoçamos, jantamos, bebemos vinho tinto, conversamos, arrumamos a cozinha e às vezes também discutimos. Há momentos em que ela se esquece e tenta dar-me um beijinho, e eu lá tenho de a relembrar de que o amor só pode ser verbalizado nos dias que correm, não há espaço para o contacto físico. O resto do tempo é passado no meu estúdio, a acabar o meu próximo álbum sem ter a certeza de quando será lançado, a telefonar aos meus amigos e a esforçar-me por sentir alguma normalidade. O mundo não vai acabar e nós temos de continuar a trabalhar, mesmo que isso implique não poder sair de casa. Também ensaio e a faço as pazes com letras que falam de uma realidade tão distante que parece exótica. 

Algumas quarentenas são melhores do que outras. Cada vez que o espírito ameaça ceder à tristeza, basta-me pensar na sorte que tenho em estar seguro dentro de minha casa, com a minha música, os meus instrumentos, as canções que tenho de acabar, os livros, os filmes e todos os confortos que tenho o privilégio de ter. Na fronteira entre a Turquia e a Grécia há uma bomba-relógio humanitária prestes a explodir, pessoas que não têm uma casa, nem água potável, nem esgotos, nem séries, nem filmes, nem esperança. O vírus também se irá disseminar entre eles e só lhes resta esperar que a sorte lhes reserve o menor impacto possível. A quarentena deles será bem menos agradável do que a nossa.

Nos hospitais, os médicos preparam-se para o pior para que possamos ter o melhor desfecho possível. Milhares de trabalhadores continuam a garantir que temos comida em nossas casas, que o nosso lixo é recolhido, que a nossa electricidade dá energia aos nossos filmes e discos – pessoas que garantem que a vida continua até à incerteza que aí vem. Famílias inteiras têm de passar a quarentena em casas minúsculas, tornando a convivência social uma tarefa desafiante. Outras não sabem como irão pagar a renda do tecto da quarentena. Nenhum de nós sabe o que o futuro nos reserva – mais ou menos privilegiados, mais ricos ou mais pobres.

Quando me vou deitar, às vezes bate o medo. Mas depois penso que todos os candidatos a ganhar o Prémio Nobel, todos os líderes mundiais, todas as mentes brilhantes do mundo estão a trabalhar para nos safar deste evento que tem as suas páginas garantidas nos livros de História. Eu já só queria dar um beijinho à minha avó quando ela apanha o elevador para ir dormir, abraçar o meu irmão que está longe, ou simplesmente ir jantar a casa dos meus pais.

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