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Picar o Ponto: Profissões que não podem parar

O Ronaldo dos padeiros

Diogo aparece por uma porta estreita. Quase parece planar. É rápido. Vai preparar as pizzas. Depois as bolas-de-berlim. Faz tudo a correr como se estivesse numa competição. Mesmo em tempos de isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus, há quem não consiga ficar em casa. Nos próximos dias, a crónica fotográfica Picar o Ponto apresenta sete profissões que não podem parar.

São 23h. A vivenda amarela ainda tem os portões fechados. Espero com o frio a entrar pelos ossos. O motor começa a ranger e o portão começa a abrir. Devagar. Percorro o pátio onde estão as carrinhas comerciais. Tudo impecavelmente arrumado. Uma luz intensa indica o caminho. Lá dentro está quente. O calor do forno invade a ampla sala forrada a azulejos brancos. Bela, a proprietária da padaria Cantinho, vigia a gigantesca amassadeira. Com a cadência certa, a massa vai girando como um carrossel. Na mesa de inox, Bela espalha agora farinha. Vai ser lá que vão tender o pão.

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Diogo, o filho de Bela, aparece por uma porta estreita. Quase parece planar. É rápido. Vai preparar as pizzas. Depois as bolas-de-berlim. Faz tudo a correr como se estivesse numa competição. Fico a olhar para ele. Admirado com o seu ritmo de trabalho. Diogo diz que sempre foi assim: “Nasci na farinha.” Os dois, mãe e filho, vestidos de branco, de t shirt e calções, labutam todas as santas noites. “Uma pessoa habitua-se. Nascemos nisto e nisto vamos morrer.”

Com a precisão da experiência acumulada, cortam a massa e fazem montes na mesa de inox. Depois amassam com gestos fortes e expressões rígidas. São rápidos. Ali tudo é rápido. Bela prepara os tabuleiros e Diogo limpa o forno com gestos mecanizados. Chega a hora de desenhar. Com a rapidez que me faz trocar os olhos, Bela e Diogo dão forma à massa até adivinharmos as carcaças, o pão da avó e os bijous. São milhares por noite. Mas agora menos uns milhares. Os restaurantes fecharam. “Deixámos de vender muito pão.” E os noctívagos deixaram de aparecer. “Vinham comer um pão com chouriço ou uma bola-de-berlim. Uma fatia de pizza. Com o estado de emergência não se vê ninguém na rua.”

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As horas vão passando e, não tarda, o véu de luz começará a aparecer. Dentro do rectângulo branco e quente, mãe e filho não param. Não fazem uma pausa. Não fumam um cigarro, nem vêm ao pátio apanhar ar fresco. São milhares os pães, a contra-relógio. Sete horas a carregar sacos de farinha, a amassar, a tender, a desenhar, a cozer, a distribuir. No fim tudo é limpo. Tudo é desinfectado. Bela tem medo do vírus. Quem não tem? Mas não pode parar. Tem contas para acertar a cada final do mês. E faz pão. “O alimento mais precioso. As pessoas esperam por nós todas as manhãs.”

Na carrinha carregada de sacos de plástico com pães e moradas, ainda de noite, Bela acelera por ruas e ruelas que conhece como a palma das suas mãos. Pendura cada saco em portões e portas. Já nem os cães ladram. Já a conhecem. Já não estranham. O estado de emergência fez o telefone de Bela disparar. Os pedidos de entrega ao domicílio aumentaram. Bela não diz que não. O pão não se recusa.

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Diogo continua no forno. Com o mesmo ritmo. Chamam-lhe o “Ronaldo dos padeiros”. Em horas de incertezas, são necessários campeões como de “pão para a boca”. Obrigado, Diogo.

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