Opinião

Há vida (e mortes) para além da covid-19

É imperativo concentrar esforços no combate à pandemia por SARS-CoV-2, mas não podemos permitir que o vírus infete o Serviço Nacional de Saúde e o impeça de cumprir a sua função global. Os desafios são grandes e as escolhas são difíceis, mas há doenças para tratar, para além da covid-19. Não podemos ignorar isso, sob pena de vermos a mortalidade por cancro disparar no nosso país.

Não é fácil falar de outra coisa que não seja a pandemia de covid-19 que nos afeta a todos, mas é precisamente por isso que hoje escrevo este artigo. Começo por afirmar o meu total apoio a todos os esforços que têm sido feitos para a contenção desta pandemia. Tenho estado do lado de quem tem defendido mais ação, mais precocemente, na defesa da saúde pública do nosso país, de que têm sido exemplo as tomadas de posição públicas do Conselho das Escolas Médicas Portuguesas, perante a hesitação de alguns agentes. Posto isto, não posso deixar de lembrar que há vida (e mortes) para além da covid-19.

Sou médico Radiologista de Intervenção e, desde a minha diferenciação, trabalho na Unidade de Radiologia de Intervenção e no Centro Hepato-Bilio-Pancreático e de Transplantação (CHBPT) do Hospital Curry Cabral. Este Hospital integra o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC) e contém alguns dos maiores serviços da Europa no tratamento do cancro do fígado, vias biliares, pâncreas e da transplantação de órgãos, com recursos humanos e técnicos que mais nenhum hospital do sul do país dispõe. Estes cancros são dos mais letais atualmente e, por esse motivo, os tratamentos realizados no Hospital Curry Cabral, assegurados pela cirurgia e pela radiologia de intervenção, constituem hoje a única esperança de cura para muitos doentes.

A tutela tenciona avançar para a transformação do Hospital Curry Cabral num hospital exclusivamente dedicado a covid-19, o que implicará a deslocalização física de alguns dos seus serviços para locais com menores condições, à custa da desintegração parcial de algumas equipas, por um período de tempo difícil de antecipar. Esta decisão paralisará alguns dos Centros de Referência do CHULC, o que irá tornar impossível tratar os doentes com a mesma qualidade e segurança. Não podemos descurar os doentes que precisam destes serviços, nomeadamente doentes com cancro, com necessidade de tratamentos inadiáveis, sob pena de verem as suas doenças progredir até não ser mais possível um tratamento curativo. Em alguns destes doentes, o risco de contrair covid-19 pode até ser admissível, no momento de tentar curar o seu cancro. Um doente com um cancro do fígado, a quem pode ser hoje oferecido um tratamento curativo, não terá essa possibilidade se esperarmos três meses, muito menos se esperarmos pela passagem da pandemia. Os doentes precisam, os profissionais querem e a tutela tem de estar à altura de providenciar soluções adequadas. Lisboa e toda a região sul do país dependem do Hospital Curry Cabral para o tratamento do cancro do fígado, vias biliares e pâncreas, porque nem o Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil tem equipas ou equipamentos para o fazer.

No imediato, existem duas opções nos hospitais. A opção de criar hospitais com circuitos paralelos na mesma instituição, com separação entre doentes covid e não-covid; e a opção de criar hospitais totalmente livres de covid. A primeira, sendo um desafio enorme às atuais estruturas hospitalares, com risco de transmissão entre doentes e profissionais, é perfeitamente exequível no Hospital Curry Cabral, tendo em conta as suas características físicas que permitem a separação em “dois edifícios”, garantindo a atividade de todo o CHBPT em segurança, separada de toda a estrutura que acolherá os doentes com covid-19. A segunda opção implica um controlo obsessivo das cadeias de transmissão dentro de um hospital, não sendo possível, no contexto de pandemia, com urgências abertas, evitar eventuais contágios em absoluto. Para além disso, é impossível transferir toda a estrutura de blocos operatórios de excelência, robot cirúrgico e sala de radiologia de intervenção integrada.

Na minha opinião, destinar o Hospital Curry Cabral a tratar doentes com covid-19 em exclusivo hipotecará o funcionamento destes Centros de Referência, já diminuído pela pandemia, limitando a capacidade imediata e futura de tratar doentes que deles necessitam. As decisões de hoje poderão pagar-se em anos de vida para muitos doentes com cancro no futuro.

É imperativo concentrar esforços no combate à pandemia por SARS-CoV-2, mas não podemos permitir que o vírus infete o Serviço Nacional de Saúde e o impeça de cumprir a sua função global. Os desafios são grandes e as escolhas são difíceis, mas há doenças para tratar, para além da covid-19. Não podemos ignorar isso, sob pena de vermos a mortalidade por cancro disparar no nosso país.

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