Torne-se perito Reportagem

“A pessoa tem um pé-de-meia, mas ele acaba”

As ondas da crise económica provocada pelo novo coronavírus ainda só agora começaram a agitar-se, mas há já quem sinta na pele efeitos dramáticos. Entre todos, aqueles que estão em situações de maior precariedade laboral.

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paulo pimenta

A Rua da Senhora do Monte ficou silenciosa de um dia para o outro. Os tuk-tuks percorriam-na de manhã à noite a caminho do famoso miradouro lisboeta, mas desde há semanas que os turistas quase desapareceram e as filas já não são de triciclos, mas de pessoas para o supermercado.

No clima como no turismo, Março costuma ser um mês morno: desperta frio e vai aquecendo até se tornar ameno. “A partir de meados do mês começava a animar um pouquinho, vinham os primeiros barcos de cruzeiro, os autocarros de turismo, os espanhóis para a Páscoa. Este ano não vamos ter nada”, prevê Rosa Pequeno. Motorista de tuk-tuk em Lisboa há quatro anos, Rosa decidiu há dois lançar-se por conta própria e comprou o seu próprio veículo, que ainda está a pagar. A pandemia de covid-19 apanhou-a na pior altura.

“O Inverno é tramado na nossa actividade. Não consegui fazer almofadinha”, relata, dando conta de três meses em que a procura deu para ir vivendo e pouco mais. “Janeiro ainda conseguimos trabalhar de acordo com a expectativa, que nunca é grande, mas em Fevereiro já se notou uma quebra e a primeira semana de Março foi quase nula. Ainda consegui fazer uns quatro serviços, mas a cidade estava vazia. E havia já uma retracção de aproximação.”

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O turismo caiu a pique e foi um dos primeiros sectores a sentir o efeito da pandemia. Rosa Pequeno com o seu veículo, que ainda está a pagar DR

Rosa decidiu encostar o tuk e ele assim tem estado, não sabe até quando. Num Março normal conseguiria mil e poucos euros de facturação. “Neste momento estou sem nenhuma fonte de rendimento”, diz, com um riso nervoso, porque o dinheiro não entra mas as despesas não param. Este ano contava fazer uma amortização do empréstimo que contraiu para comprar o veículo. Perspectiva agora que tal venha a ser impossível. E, entretanto, as prestações continuarão a cair mensalmente. “Eu estou a prever recomeçar a trabalhar em meados de Maio”, afirma. É quando o pé-de-meia se esgota.

Trapézio sem rede

As ondas da crise provocada pelo novo coronavírus ainda só agora começaram a agitar-se, mas há já quem sinta na pele efeitos dramáticos. Trabalhadores a recibos verdes ficam de repente sem trabalho e empregados de empresas são mandados para casa em layoff, enquanto outros são pressionados a tirar férias ou mesmo despedidos, numa crise que penaliza primeiro os mais precários.

A situação de Iraci Bale é ainda mais bicuda. Empregada doméstica em casas de Oeiras e do Restelo, em Lisboa, está como muitas das suas colegas de profissão: não tem contrato, não passa recibos, um dia tem trabalho e no outro fica descalça. Foi o que lhe aconteceu este mês. “A maioria das casas deixei a semana passada, porque na maioria há idosos. Neste momento só estou indo a uma”, conta. Resumo: “Se você não vai, você não recebe.”

Numa semana normal, Iraci passa as manhãs de segunda a quinta na casa de um patrão e à tarde vai a outras. Faz ainda limpezas numa academia desportiva. Ao fim do mês consegue levar para casa uns 650 euros – agora evaporados. O marido, que trabalha num restaurante em Belém, está de férias até meio da próxima semana por indicação do patrão e regressará no início de Abril para servir refeições em regime de take-away. Não é o cenário ideal, pois está em casa desocupado, mas sempre mantém algum rendimento à família. “A renda é cara, energia tem que pagar na mesma, está complicado”, desabafa Iraci.

Se a sua angústia já era grande, tem vindo a piorar nos últimos dias. “Tenho uma viagem marcada para o Brasil no dia 3. Ontem fiquei uma hora e meia no telefone para saber se tenho voo. Ninguém atende. Vou ter de ir para o aeroporto e ver o que acontece”, lamenta.

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Pais com filhos em idade escolar enfrentam a incerteza dos próximos meses Paulo Pimenta

Numa grande incógnita vive, por estes dias, o assistente de bordo Alfredo Martinho, que habitualmente trabalha nos bares dos comboios. “Fomos dispensados do serviço no dia 19 por telefone”, diz, sublinhando que ainda está à espera de saber como será o seu futuro imediato. O ordenado integral do mês de Março está garantido porque a folha salarial “fecha no dia 20”, mas se a empresa suspender os contratos (layoff), como Alfredo está convencido de que acontecerá, o que vai receber em Abril? Ou Maio? “Temos estado constantemente a ligar para o sindicato”, revela. Luís Trindade, coordenador do Sindicato de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul, confirma que tem recebido muitos telefonemas de trabalhadores com dúvidas e queixas.

Perdas abruptas

A suspensão dos contratos de trabalho tem um efeito dominó. “Já comunicámos às pessoas que vai acontecer, a dúvida é quando vamos activar”, diz um gestor de recursos humanos que, por motivos profissionais, prefere não se identificar. No caso do seu sector, o das telecomunicações, começam por entrar em layoff “todos os trabalhadores do retalho, das lojas”, que foram as primeiras a parar totalmente por força da declaração de estado de emergência. “Fechando as lojas não precisamos de ter tanta gente no departamento financeiro”, prossegue.

E aí por diante, talvez deixando apenas de fora as pessoas que fazem um trabalho técnico especializado, indispensáveis para manter os serviços mínimos. Durante este período, a empresa “paga a totalidade do ordenado ao trabalhador e depois a Segurança Social vem ressarcir [na realidade, são dois terços do ordenado]”, explica a mesma fonte, referindo-se aos apoios às empresas que na sexta-feira foram publicados em Diário da República.

Sem expectativa de receitas nos tempos mais próximos, gerir a tesouraria da empresa é um exercício de equilibrismo. O mesmo se aplica, neste caso específico, aos trabalhadores, sobretudo os das lojas. Só o pagamento do salário-base pode significar um rombo de monta, pois a maioria ganha o ordenado mínimo e conta com uma parte variável, por via das comissões de vendas, para compor o rendimento ao fim do mês. “Esta é uma daquelas situações em que ficamos todos a perder, empresa e funcionários”, diz este gestor de recursos humanos.

Igualmente à espera de apoio da Segurança Social está Luísa, nome fictício de uma psicóloga que trabalha para três instituições nos distritos de Porto e Braga. O seu caso é o típico ‘falso recibo verde’, pois todas as semanas presta serviço nas três entidades e não tem vínculo contratual com nenhuma. Como todas elas estão relacionadas com crianças, as três fecharam nas últimas semanas e Luísa ficou sem trabalho. Está habituada a que assim seja durante o Verão, quando termina o calendário escolar; mais preocupante é que isso aconteça a meio do ano e quando já não falta assim tanto para o fim das aulas. Ou seja, uma paragem de poucas semanas pode converter-se num interregno de meses.

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A actividade de Sara Soares está totalmente paralizada desde há semanas DR

“Se esta situação se mantiver por muito mais tempo vai ser muito difícil de gerir”, admite Luísa, mãe de uma menina com menos de um ano – que agora está em casa porque a creche fechou. “Nem sei como é com a mensalidade do próximo mês. Ainda não recebemos qualquer informação”, lembra-se, para constatar de seguida que “os encargos continuam” apesar das circunstâncias.

Já com a certeza de que não vai ter remuneração em dois dos seus empregos e sem direito a subsídio de desemprego, Luísa espera que o Estado a possa ajudar. “Vou candidatar-me ao apoio a trabalhadores independentes, mas não é uma situação muito fácil porque já sabemos como são estas coisas, o tempo que demoram a responder”, comenta.

A esperança na incerteza

Esta quarta-feira, 1 de Abril, é também o dia por que espera Sara Soares, stylist de moda. É quando ficarão disponíveis os formulários da Segurança Social para apoio extraordinário aos trabalhadores independentes que “se encontrem em situação comprovada de paragem da sua actividade ou da actividade do respectivo sector em consequência do surto”.

É o caso de Sara. O seu trabalho é vestir modelos para sessões fotográficas ou filmagens, que actualmente “foram todas suspensas”. A vida é-lhe sempre uma viagem atribulada porque nunca sabe quantos clientes virão bater à porta. “Há meses mais complicados e outros mais favoráveis, estamos sempre no limbo. Estou um pouco assustada porque se isto durar algum tempo vai ser complicado”, admite. “A pessoa tem um pé-de-meia, mas ele acaba.”

O que a deixa mais tranquila, para já, é saber que ainda tem valores por receber de trabalhos que já fez, porque geralmente é paga a 90 ou a 120 dias. “Quando começou este período de isolamento tinha uma sessão marcada para um cliente chinês. Até queriam que eu fosse a um centro comercial escolher roupas, mas já não fui. O meu trabalho é muito presencial, é preciso ir a sítios, mexer em coisas.”

Sara Soares tem também alguma esperança de que a crise económica que se avizinha possa até ser uma oportunidade. “Se outros mercados começarem a precisar da nossa ajuda, isso pode ser bom para os profissionais que trabalham as marcas.”

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