Reportagem

“Se tiver de parar, farei tudo para ser a última a fazê-lo”

Em Angeiras, Matosinhos, a vida de uma pequena comunidade ligada à pesca local, continua, e mesmo gente em idade de risco continua a ir ao mar.

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Paula Ribeiro atende-nos o telefone enquanto trabalha. E no tempo que há-de demorar a conversa, lá vende um cherne, peixe fino e bom, por cem euros, na sua banca no mercado de Angeiras, em Matosinhos. O Coronavírus impôs algumas mudanças a quem vive da pesca e da comercialização do pescado, mas ela já percebeu há alguma gente a comprar em maior quantidade, compensando a quebra no número de clientes. “Ninguém vai enriquecer nesta fase, mas não podemos parar tudo”, alerta esta mulher de 48 anos cujo marido vai entrar em lay-off na empresa onde trabalha e não quer imaginar sequer ter de parar, ela também.

Ainda que lhes apareça menos gente pela praia, a tentar comprar peixe acabado de chegar, o coronavírus não travou a pesca em Angeiras. Da frota de 16 pequenas embarcações tripuladas por dois ou três homens, só parte conseguia já manter-se activa e essa está, nesta fase, mais dependente dos humores do mar e das flutuações do mercado do que do vírus, que ainda não deixou ninguém em terra. Mesmo que entre os pescadores se encontre gente enquadrável nos grupos com maior risco de o contrair e desenvolver sintomas mais graves da covid-19.

A bordo, os cuidados são os possíveis. Quando não estão na faina, os homens entretêm-se, nas respectivas casas de mar, a consertar redes e outros aparelhos de pesca, quase sempre sós, ou em duo, como no mar. É o caso de Fernando Fonseca que, quase a fazer 68 anos continua a pescar com um sócio e amigo, da mesma idade. Cada um deles tem um barco, o Rumo à Liberdade e o Lua Nova, mas, por falta de mão-de-obra, trabalham juntos, dividindo o ano, os rendimentos e os impostos por cada uma das embarcações. Assim acontece também na comunidade vizinha de Vila Chã, já em Vila do Conde, onde não há homens que cheguem para tripular os nove barcos varados na praia.

Sem doentes e sem medo

Maria Arminda Franco, esposa de Fernando Fonseca, ajuda-os nas tarefas de terra, aos 66 anos, enquanto deita um olho à mãe, de 90 anos, que é, nestes tempos, a sua maior preocupação. O casal já está reformado (e os pescadores, dado o desgaste da profissão, até podem deixar de trabalhar aos 55 anos), mas o valor da reforma de ambos não permite que parem, explica a mulher, lamentando que não o possam fazer apesar de uma vida dura, em que nem ao sábado e ao domingo se parava. “Mas pronto, pelo menos agora ele só lá vai duas ou três vezes por semana”, acrescenta, com algum alívio. Mesmo nesta fase? “Sim”, por agora, ou, como diz, “p’ra maré, ainda não há muito medo”!  

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O casal depende, assim, do que ele pesca, e das compradoras, principalmente de uma, da comunidade, com quem trabalham há dezenas de anos, e que “tem sido muito compreensiva” na hora de comprar peixe, nesta fase em que, assume Arminda, quem vende tem menos gente a comprar. “Ela tem-nos comprado na mesma. O preço baixou um pouquinho, mas não muito”, explica a dona do Rumo à Liberdade, que, em contrapartida, sentiu, no sábado passado, “muita diferença” no número de pessoas que costumam aparecer na praia, à procura de peixe “vivinho”, e sem intermediários.

A venda directa continua a garantir o escoamento de parte do que se captura na designada pesca local, que mantém vivas pequenas comunidades como esta, de Norte a Sul do país e nas ilhas. Salvador Barbosa, outro sexagenário que ainda não parou de pescar - e que pretende continuar a fazê-lo, mais uns anos, enquanto tiver saúde - refere que são várias as pessoas que sempre lhe ligam, a encomendar peixe ou simplesmente a perguntar o que trouxe, o que vai salvando a situação. Porque ele, como outros, nota também a quebra de preços em algumas espécies.

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Paulo Pimenta

O dono do Cordeiro de Deus, que no dia em que conversou com o PÚBLICO tinha deixado o barco no Porto de Leixões, bem mais seguro do que a praia deles, defende, como algumas associações da pesca costeira (que usa embarcações acima dos 12 metros de comprimento e tripulações mais numerosas), a paragem parcial da frota. A medida proposta pelos armadores está também a ser defendida pelo Governo junto da Comissão Europeia, a quem o Ministério do Mar já pediu, de viva voz, na última reunião, e já esta semana, por carta, uma alteração do fundo do sector, o FEAMP, de modo a que parte da verba possa financiar o rendimento dos pescadores, entre outras iniciativas.

"As pessoas não vão deixar de comprar"

Uma das especificidades deste sector, note-se é que os trabalhadores ganham apenas parte do que resulta da venda de pescado e, se a frota parar, ainda que parcialmente, ficam sem qualquer rendimento. Mas a paragem - que nos Açores, onde o Governo regional tem autonomia de decisão em termos de política de pesca, pode vir a acontecer já em Abril, se for por diante a vontade das organizações locais - não é consensual, no Continente. Se há armadores que viram, de facto, o preço do peixe vendido em lota descer para níveis considerados insustentáveis, outros há que consideram que a reacção a isso foi um pouco extemporânea, tendo em conta que o Estado de Emergência mexeu com toda a economia, e que empresas e pessoas vão, à medida que o tempo vai passando, reorganizando as respectivas rotinas.

O encerramento dos restaurantes foi um golpe duro, mas “quem não perdeu o emprego e está em casa tem que cozinhar, e até tem tempo para isso”, nota um armador, acreditando que, com a chegada da Primavera, as famílias, mesmo confinadas vão, nalguns casos, até comer mais peixe, se o puderem comprar”. Mas para isso, insiste, é preciso que haja quem o capture e quem o possa vender. E para este empresário, o problema da venda, na pesca costeira, que funciona com contratos de preços fixos (parte deles com as grandes superfícies) ou com leilões descendentes em lota, sem valor mínimo garantido, é estrutural, e a crise provocada pela covid-19 só veio demonstrar como o sistema é “injusto” para o sector. 

Além disso, este mesmo armador teme que uma paragem de parte da frota leve, no final, a um abate de muitas embarcações, se se perceber que são necessários menos unidades para abastecer o mercado e que a medida melhora o rendimento médio da pesca. Ou seja, aqui como noutros sectores, a crise coloca também problemas de continuidade das empresas. Várias já não existirão quando a vida voltar ao normal, seja lá quando, e como isso vier a acontecer.

Na sua banca do mercado de Angeiras, Paula Ribeiro, que se abastece muito de pescado descarregado nos portos de Viana a Leixões, onde opera a frota da pesca artesanal, já sabe destes apelos à paragem, e não concorda. “Vamos continuar a precisar de peixe. Se o Governo der subsídios aos barcos para pararem vai compensar quem lhes compra, quem transporta, os vendedores dos mercados e todos os que dependem disso? - questiona esta empresária, antevendo as dificuldades que as outras famílias ali instaladas vão passar, tendo em conta os problemas que, quem trabalha noutros sectores, já está a atravessar.

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Paulo Pimenta

Paula Ribeiro admite que, até à hora em que falávamos, nesta terça-feira, o dia, em termos de vendas, estava a ser “péssimo”, mas a pensar nos filhos, da sócia e irmã, que é viúva e tem também filhos, e na empregada de ambas, também com o marido já em lay-off e gente em casa para alimentar, recusa fechar a banca. “A minha contabilista ligou-me a explicar-me as medidas que foram anunciadas para as empresas, de modo que eu pudesse tomar uma decisão informada. Mas eu disse-lhe que quero continuar. Se tiver de parar, vou fazer tudo para ser a última a fazê-lo”, garante.

 
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