Liliana Ascensão: a profecia do viajante

Liliana Ascensão é líder de viagem da agência The Wanderlust. “A liberdade para explorar é o nosso maior privilégio, o tempo é um recurso muito mais escasso e precioso do que o petróleo”.

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Liliana Ascensão

Sou viajante. Há um ano estava na Malásia, fui de lá para Bali, daí para o Dubai e entre voltar à Ásia e ir a Marrocos duas vezes, estive duas semanas em Portugal. Em Setembro fui para os Estados Unidos, de lá para a Guatemala, andei pelo Belize, passei o Natal numa praia no Pacífico em Oaxaca e em Janeiro fui para o Chile, que já estava em estado de sítio por questões sociais. Entrei na Patagónia Argentina, passei pelo Paraguai, entrei no sul do Brasil, passei o Carnaval no Rio de Janeiro e vim para uma parte remota do México. Não tenho casa fixa, viajar é o meu estilo de vida, faz parte da minha identidade e é, ou era, a minha principal actividade profissional. A perspectiva de não o poder fazer é angustiante. 

Sou portuguesa. Há uns meses decidi que era hora de voltar a assentar onde possa estar mais perto da minha família e amigos. O plano era regressar por estes dias. Tinha os voos organizados e um objectivo, e andava imersa em tradições de uma tribo indígena Mexicana, os Wixarika de San Luís Potosi, e praticamente isolada, quando percebi que o mundo tinha mudado. Ser portuguesa também faz parte da minha identidade, ser confrontada com o impedimento de regressar ao meu país quando bem entender, e pelo facto de que quando o fizer provavelmente encontrarei uma situação económica ingrata para recomeços também é angustiante. 

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Liliana Ascensão

Angústia, em todos os idiomas, parece acompanhar uma boa parte da população mundial nos dias que correm. Um problema do primeiro ao último mundo, unidos nela, ainda que separados por fronteiras virtuais e imposições que não controlamos e que parecem não nos proteger eficazmente de um vírus que não entendemos, mas que sabemos que ignora os nossos privilégios.

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"Infindáveis demonstrações de compaixão, solidariedade e um tsunami de esperança assoberbam as redes sociais e a vida real." Liliana Ascensão

Do familiar afectado ao emprego perdido, passando pelo insólito das quarentenas e sonhos adiados, estamos juntos fora da zona de conforto, confinados separadamente dentro de algum lugar no mundo. Poderia dizer-se que era uma situação inimaginável, não tivesse sido ela já retratada em crónicas fatalistas de adivinhos e visionários, no cinema e nos livros.

Ainda assim, não estávamos preparados, e como em todos os momentos difíceis que apanham a humanidade desprevenida, emerge também a natureza benigna e abnegada do ser humano, em contraste com o egocentrismo das corporações que regem o mundo actual. Infindáveis demonstrações de compaixão, solidariedade e um tsunami de esperança assoberbam as redes sociais e a vida real. No meu caso, retida num país estrangeiro, solidez familiar e a certeza que tenho apoio em cada canto do Mundo. “O México adopta-te, fica tranquila”, “se conseguires chegar à Colômbia”, “no Brasil à tua espera”, “vem para Londres”, “vi que podes voar cá para a Califórnia”, “a tua casa espera-te aqui”, e ali.

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"Que às vezes se dá um passo atrás para seguir adiante jamais fez tanto sentido num esquema global."

Para um viajante apaixonado, esta também não era uma situação tão longe de ser imaginada. Esta é, na verdade, a sua profecia. Quase todos os que se entregam a viajar indefinidamente sonham com isto nalgum momento: uma mudança de paradigma, em que todos somos bem-vindos em todo o lado, fruto de uma visceral realização da condição humana. Junto com isto, e sobretudo, sonham com um realinhamento global de propósito, reequacionar os motivos pelos quais fazemos o que fazemos, e o seu impacto neste planeta, na vida dos outros e nas futuras gerações.

Os viajantes profetizam sobre o regresso a formas tradicionais de produção, de consumo, de vida, em que o conceito sustentável se sobrepõe ao de lucrativo. Sonham com a reversão da exploração intensiva dos recursos naturais, que mais pessoas se apercebem que a liberdade para explorar é o nosso maior privilégio, o tempo é um recurso muito mais escasso e precioso do que o petróleo, que o sucesso se mede pelo número de respirações saudáveis e em paz que damos num dia e não em bens materiais, que abundância não tem nada a ver com finanças, e que a terra a providencia, e que é com a escassez de afectos que nos devemos preocupar. 

Que às vezes se dá um passo atrás para seguir adiante jamais fez tanto sentido num esquema global. Acredito que como espécie e como cultura estávamos a ir numa direcção dúbia. Pessoalmente, e apesar do meu idealismo, estava a voar demasiado, a ter uma pegada pesada e a descuidar o meu bem-estar e a profundidade das minhas relações na avidez de experienciar tudo. Enquanto a mensagem de que menos é mais é finalmente incorporada por tantos como eu, e ecoa agora também das bocas mais inesperadas, esta é uma incrível e incómoda oportunidade para descansar de estilos de vida exaustivos, questionar tudo e realinhar propósito.

Eventualmente voltaremos à viagem das nossas vidas mais focados em vivê-las intencionalmente, desta vez sem perder o destino. Os viajantes, como muitos, sonham com uma nova ordem mundial. Que mudemos mundo, cada um de nós em responsabilidade, com as nossas escolhas individuais daqui para a frente, e imagino um lugar ainda mais especial em que viveremos e em que viverão as futuras gerações. Então que assim seja. E até lá, que integremos bem que somos natureza e como tal, ser humano também é ser vulnerável, pois é essa, no fundo, a profecia. 

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