No Twitter não há confinamento e os políticos estão cada vez mais activos

Com a pandemia covid-19 os políticos e os partidos estão mais presentes que nunca no Twitter, mas nem todos estão a usar a rede social da melhor forma.

Foto
O computador é o meio privilegiado para o contacto político em tempos de pandemia Paulo Pimenta

A rede social Twitter é há muito tempo um dos “palanques” preferidos de políticos de todo o mundo para fazerem passar a sua mensagem sem contraditório, para influenciarem a opinião pública ou até para criarem contra-narrativas sobre matérias que não lhes são favoráveis. Os políticos portugueses não são excepção. Com o abrandar da actividade política e com o confinamento caseiro face à pandemia covid-19, a actividade na rede ganhou ainda mais intensidade em Portugal. Conferências de imprensa em directo, mensagens vídeo, declarações e propostas políticas e até confrontos partidários. Quase tudo na política passa cada vez mais pelo Twitter.

Mas será este um meio eficaz para passar a mensagem política? Gustavo Cardoso, sociólogo do ISCTE e que integra o MediaLab deste instituto, que analisa o sentimento dos portugueses nas redes sociais sobre os políticos, diz que o Twitter é usado por governantes e dirigentes partidários como uma ferramenta para “se dirigirem directamente aos cidadãos sem ter de passar pelo crivo do jornalismo”.

E isso, acrescenta, “tanto serve para ganhar espaço público, quando o jornalismo não considera interessante dar espaço a um dado político ou partido”, como também “para não responder às perguntas de jornalistas ou, mesmo, para criar uma contra-narrativa face ao jornalismo publicado”.

Palco de políticos, jornalistas e comentadores

O Twitter não é um espaço público vivido pelo cidadão médio português. A maioria prefere o Facebook, especialmente os mais velhos, ou o Instagram, no caso dos mais novos, ou ainda no WhatsApp, para onde vão aqueles que preferem não partilhar publicamente o que pensam.

Este facto não retira, porém, importância a esta rede social para a actividade política. Até porque, explica Gustavo Cardoso, o Twitter em Portugal “é, figurativamente, um espaço de políticos, jornalistas e comentadores e, também, de todos aqueles que desejariam ser políticos, comentadores e jornalistas e não o podem, ou ainda não o conseguiram ser”.

“Assim, é uma esfera pública segmentada onde se procura criar opinião entre os seus utilizadores e, também, influenciar o jornalismo sem ter de falar directamente com o jornalista ou criando a curiosidade para depois o jornalista questionar o político sobre algo que não estava na agenda antes”, acrescenta.

Por ser um espaço elitista, no sentido em que em termos de idades, profissões, escolaridade e género, entre outros segmentos, não é representativo da população do país, o Twitter “é essencialmente um espaço onde pessoas já mobilizadas politicamente por um partido ou outro tentam criar sentimentos positivos e negativos sobre os políticos e partidos que apoiam ou que são contra”. Um espaço onde essencialmente se tenta “criar ondas positivas ou negativas naqueles outros que vão oscilando nas suas posições a favor ou contra alguém”, diz sociólogo do ISCTE.

Este facto faz com que a maior parte dos comentários às acções e às palavras dos políticos no Twitter seja “quase sempre negativa”. “Por isso, a análise [dos sentimentos relativamente aos políticos] tem de ser feita ao longo das semanas para perceber tendências e comparar quem tem mais sentimentos favoráveis e não tanto quem tem mais sentimentos negativos.”, revela Gustavo Cardoso.

O sociólogo assegura, que tal como acontece com os discursos públicos proferidos por muitos dirigentes partidários, no Twitter “são raras as contas onde é o próprio líder político que lá escreve”. Daí, que considere fundamental para que o discurso político seja efectivo que exista “coerência nas publicações e que o político não se transforme em Fernando Pessoa com vários heterónimos - algo que na poesia e ficção pode ser um ganho é, certamente, uma perda na política.”

“O político não pode ter três personalidades, a da intervenção escrita num jornal, a da fala em directo na TV e na Rádio e, depois, uma terceira no Twitter. Em Portugal há situações em que claramente isso ocorre, embora tenham vindo a ser lentamente corrigidas”, afirma.

O exemplo de Donald Trump

Gustavo Cardoso aponta Donald Trump como o político que melhor utilização faz do Twitter a nível mundial, salientando, porém, não concordar nem com a sua política nem com a sua prática política. “É um exemplo de uma utilização eficaz e eficiente da rede como ferramenta política.”

Em Portugal, acrescenta, “estamos ainda algo atrás da generalização da boa prática”: “Para começar, nem todos os políticos procuraram obter a verificação oficial do Twitter para as suas contas, pelo que o cidadão nem sequer pode ter imediatamente a certeza de que são mesmo verdadeiras.”

Disso são exemplo, partidos como Os Verdes, Livre e PCP, ou os políticos Francisco Rodrigues dos Santos (CDS), João Cotrim Figueiredo (IL), André Ventura (Chega) e Joacine Katar Moreira (eleita pelo Livre e agora deputada não-inscrita).

Já o CDS, o PS, o PSD e Iniciativa Liberal e políticos como Catarina Martins, António Costa, Rui Rio, Ana Catarina Mendes e Marisa Matias fazem questão de terem as suas contas verificadas pelo Twitter.

O sociólogo aponta o PSD e o PS como os partidos que melhor uso fazem das suas contas. Já em termos de uso individual por políticos destaca os eurodeputados do Bloco de Esquerda (Maria Matias e José Gusmão) e o presidente do PSD, Rui Rio.