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Prescrição social: lutar contra o isolamento social antes e depois do coronavírus

O combate à solidão precisa de toda a sociedade, mas o Serviço Nacional de Saúde deve liderar o exemplo, até porque as consequências serão um encargo, a longo prazo, para o sistema de saúde.

A solidão mata. Enquanto médico, isto preocupa-me, sobretudo porque a solução para este problema de saúde não se encontra num prontuário terapêutico. Esta sensação de impotência está na génese do movimento “Social Prescribing” (prescrição social), que procura responder às necessidades sociais, emocionais e práticas dos pacientes, ligando-os a respostas e apoios sociais disponíveis na comunidade. A ligação é efectivada pelo assistente social da unidade de saúde que, conhecendo bem a comunidade envolvente, ajuda o paciente a encontrar soluções para problemas como a solidão. Porém, de repente, o isolamento social deixou de ser uma ameaça, para se tornar um guardião da nossa saúde colectiva. Hoje, a covid-19 entrou nas nossas vidas para nos fechar entre quatro paredes, sozinhos, forçando-nos a vestir a pele de quem, antes da covid-19, já não tinha com quem falar, para onde ir ou o que fazer.

A solidão está associada a vários problemas de saúde, como depressão, insónia, alcoolismo, demência, doenças cardiovasculares ou até a alterações no sistema imunitário. Uma meta-análise publicada em 2018 na revista científica PLOS ONE concluiu que o isolamento social aumenta em 22% o risco de morte por todas as causas. Em reconhecimento deste grave problema de saúde pública, no mesmo ano, o Reino Unido criou o Ministério da Solidão, lançando a primeira estratégia governamental para combater a solidão. Prometia uma sociedade mais conectada, através de medidas como a expansão da prescrição social no sistema de saúde britânico. Tudo isto poderá parecer algo surrealista, mas já passou do papel, também em Portugal.

Existe um provérbio africano que nos relembra a essência da vida em comunidade: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. O combate à solidão precisa de toda a sociedade, mas o Serviço Nacional de Saúde deve liderar o exemplo, até porque as consequências serão um encargo, a longo prazo, para o sistema de saúde. Foi nesse sentido que, em Setembro de 2018, a Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa, em Lisboa, começou o primeiro projecto de prescrição social em Portugal, mostrando que não devem existir barreiras entre a saúde e o sector comunitário, mas sim cada vez mais colaboração, participação e co-responsabilização. Até Dezembro de 2019, médicos e enfermeiros de família da USF da Baixa encaminharam 267 pacientes para a prescrição social, sendo o principal motivo de referenciação o isolamento social. Depois da referenciação, o paciente tem uma consulta com a assistente social da USF, que co-produz com o paciente um plano terapêutico fora do habitual: cantar no coro da universidade sénior, dançar com o programa de actividade física Lisboa +55 ou aprender a falar português numa associação local são apenas alguns dos exemplos.

No dia 12 de Março, o Dia Internacional da Prescrição Social não foi celebrado em Lisboa, juntando-se à longa lista de eventos cancelados devido ao surto do novo coronavírus. Pela primeira vez, profissionais de saúde, académicos e políticos iriam debater o futuro da prescrição social em Portugal. Mas nem tudo o vento levou. Depois da tempestade covid-19, acredito que estaremos mais sensibilizados e preparados para lutar contra o isolamento social. Hoje, multiplicam-se exemplos de solidariedade e boa vizinhança nas nossas cidades. Mais do que agentes de saúde pública, somos agentes de prescrição social quando tornamos as nossas comunidades mais resilientes, solidárias e conectadas. Terminado o distanciamento social obrigatório, continuemos a lutar voluntariamente contra o isolamento social. Porque a solidão não é um vírus, mas também mata e mói.

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