Pandemia – Todos estes mortos por um tempo novo

Todos estes mortos que nos batem às janelas da alma impõem que reflitamos sobre a nossa condição humana, devendo ser mais íntegros, mais solidários e que ultrapassemos o império do dinheiro, das desigualdades e da hipocrisia.

Já não nos bastavam os mortos queridos que carregamos. Agora, a todos os minutos, pesam-nos os mortos que em todo o mundo sucumbem à covid-19.

De repente, o mundo do glamour de jovens apolíneos e cheios de saúde dá lugar a outro mundo esquizofrénico de desassossego constante acerca das mortes nos lares, nas casas de saúde e nos hospitais.

A globalização do individualismo narcísico está a dar o passo ao espetáculo da morte dos infetados.

O que ficava escondido nos reposteiros das camas dos lares e hospitais até ao derradeiro telefonema escancara-se agora ad nauseam.

Num ápice, em vez do altar do individualismo cheio de brilho e de estrelas cintilantes, sempre renovadas porque o show must go on, surge um mundo em que os indivíduos, para se salvarem, têm de defender a comunidade e a própria Humanidade.

O mundo dos epicuristas exacerbados dá lugar ao dos estoicos.

Agora já não valem muitos os likes. É a vez de dar valor aos epidemiologistas, virologistas, matemáticos, médicos, físicos, cientistas, enfermeiros, os que sabem devido ao seu esforço. Os tais heróis que amanhã, se não aprendermos, voltarão à sua categoria de meros “empregados”, quiçá alguns precários.

De repente, eis o que o tempo, desde não se sabe quando até aos seus confins, nos mostra a fragilidade de que são feitos os humanos.

Afinal não somos Deuses, mas apenas uma maquinaria tão bem afinada que, apesar disso, espera-nos inexoravelmente a finitude. Talvez por essa razão, dizem os que pensam e sabem.

Eis, nestas semanas de chumbo, o valor do esforço dos que arregaçaram as mangas, enquanto as bolsas de valores oscilam, mostrando a sua verdadeira face. Uma crise é sempre uma oportunidade para quem souber jogar. O mal é para os que não podem ir a jogo…

Os charlatães continuam a discorrer sobre tudo o que a sua ignorância não os envergonha. Em verdade, esta não é a sua hora, mesmo que se chamem Bolsonaro ou Trump. O ridículo cobriu-os com o vestuário adequado aos personagens que são.

Já alguém tinha escrito com toda a verdade – não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

Este é um tempo que nos obriga a pensar, tal como o fazem os prisioneiros, ou os confinados em defesa de todos. Um outro tempo sem ser a fazer de conta, uma espécie de carneiros ou Marias que vão umas com as outras ou Maneis.

Dizendo-se a nossa Europa católica/cristã, a esmagadora maioria está-se borrifando para o exemplo do judeu da Nazaré que aos 33 anos foi martirizado na cruz para salvação do mundo, segundo os que acreditam ou fazem de conta.

Todos estes mortos que nos batem às janelas da alma impõem que reflitamos sobre a nossa condição humana, devendo ser mais íntegros, mais solidários e que ultrapassemos o império do dinheiro, das desigualdades e da hipocrisia.

Há caminhos por fazer. Um tempo novo, com a consciência de que no íntimo de cada um pouco se mudou desde Tales de Mileto ou Einstein até aos nossos dias. Bom seria que se reflita mais sobre a nossa essência e se projete um tempo novo.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico