Bolsonaro desafia o seu próprio governo para mandar brasileiros ir trabalhar

O Presidente e os seus ministros acordaram que o chefe de Estado se iria refrear para não fragilizar a gestão da crise pandémica. Mas de nada adiantou.

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Graffiti de Bolsonaro no Rio de Janeiro Reuters/SERGIO MORAES

Um dia depois de os ministros de Jair Bolsonaro lhe terem pedido que se refreasse nos apelos ao fim do confinamento por causa do novo coronavírus, e não desprezasse a gravidade da pandemia, por estar a criar descoordenação no Governo, o Presidente brasileiro saiu à rua para falar com comerciantes e frisar o seu ponto. “Tenho conversado com o povo, eles querem trabalhar”, disse, lançando mais achas na fogueira.

Os militares estão preocupados e já expressaram o seu apoio ao vice-presidente, o general na reserva Hamilton Mourão, caso se chegue a uma situação em que Jair Bolsonaro enfrente um processo de impeachment - um fim bastante frequente para os Presidentes brasileiros.

O Ministro da Saúde brasileiro, Eduardo Mandetta, não tem perdido uma oportunidade para reforçar a importância do distanciamento social aos brasileiros, mas esses alertas não impediram o Presidente, Jair Bolsonaro, de visitar este domingo mercados em Brasília, criando aglomerados de pessoas. Sobre o vírus, disse: “Vamos ter que enfrentar como homem, porra. Não como um moleque” relata o site G1, da Globo News. 

“Eu defendo que você trabalhe. Lógico, quem é de idade fica em casa. Às vezes, o remédio demais vira veneno”, disse Bolsonaro a um feirante, citado pela Folha de São Paulo. Apesar de já ter decretado o estado de calamidade, o Presidente tem resistido a tomar medidas mais drásticas para travar a propagação do coronavírus, argumentando que a economia não pode parar. 

O Brasil registou este domingo o segundo maior aumento diário de casos confirmados, mais 487 nas últimas 24 horas, de acordo com o Ministério da Saúde. Há já 3904 pessoas infectadas, 569 estão hospitalizadas, e 117 mortes. A maioria das mortes (84) e casos (1406) foram registados no estado de São Paulo, onde o governador, João Doria, decretou a quarentena obrigatória. 

O aumento dos casos tem contrastado com as palavras do Presidente, que já caracterizou o vírus como “gripezinha”, quem fica em casa como “covarde”. O Ministério da Saúde aconselha os brasileiros a isolarem-se socialmente, evitando todo o contacto social desnecessário. Além disso, as críticas de Bolsonaro aos governadores que decretaram medidas de isolamento social têm dificultado a coordenação entre as autoridades federais e as estaduais. 

A discrepância entre o discurso do Presidente e as medidas do executivo, como o encerramento das fronteiras, está a enviar mensagens confusas e a dificultar as acções no terreno, com a Justiça brasileira a suspender decretos presidenciais.

Foi a falta de coordenação que dominou a reunião de sábado entre os ministros e o Presidente no Palácio da Alvorada. Segundo a Folha de São Paulo, ficou combinado que o Presidente se absteria de fazer declarações durante o fim-de-semana - mas algo o puxou para a rua.

"Acho que está havendo uma falta de coordenação no final”, admitiu em entrevista à Folha de São Paulo o vice-presidente, general Hamilton Mourão, optando por responsabilizar os governadores: “Têm de entender os limites e buscar uma coordenação com o Governo federal”. 

Mas o Presidente está cada vez mais isolado, ainda que Mourão tenha classificado como “mero linguajar” as declarações polémicas de Bolsonaro, apesar de discordar do chefe de Estado ao dizer que o coronavírus é “sério”. “Busca passar certo grau de confiança para a população. Aí a turma fica com raiva e quer pular na jugular dele”, disse Mourão. Salientou que Bolsonaro foi mal interpretado por apenas querer realçar a preocupação pela economia. 

As polémicas de Bolsonaro têm tido um objectivo político bastante claro: mobilizar os seus apoiantes, depois de o gabinete digital da Presidência ter detectado um enfraquecimento do discurso pró-Governo nas redes sociais, diz a Folha de São Paulo

No entanto, as declarações de Bolsonaro também têm posto em causa, aos olhos dos brasileiros, a capacidade (e vontade) do executivo no combate sanitário ao coronavírus. Muitos brasileiros têm protestado nas varandas com panelas (os chamados panelaços) e o debate sobre o impeachment ganhou novo fôlego, diz a Folha de São Paulo. E até os militares já estão a ficar preocupados. 

As Forças Armadas receiam que a gestão da crise pandémica por Bolsonaro leve a um aumento exponencial de casos de coronavírus, causando o colapso dos serviços de saúde e milhares de mortes. Representantes do Exército, Marinha e Força Aérea acreditam que esse cenário fragilizará a popularidade do Presidente, conduzindo a um cenário de impeachment. E, por isso, encontraram-se esta semana com o vice-presidente para lhe expressar o seu apoio caso isso aconteça, diz o El País

“Ele [Bolsonaro] tem um discurso belicista. Mas quem está na linha da frente de uma guerra são soldados que sabem que podem morrer. Numa pandemia, não podemos pôr toda a gente na mesma situação da dos soldados”, disse um dos militares envolvidos nestas movimentações ao jornal espanhol.