Diário de um intensivista

A quarentena é um luxo a que nós não nos podemos dar

Custa mais estar em casa, do que estar a trabalhar. Eu dei negativo. Foi das esperas mais dolorosas da minha vida.

Arte fractal
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Um mural feito em Dublin sobre o coronavirus LUSA/Aidan Crawley

Isto assusta. Há muito que acredito que a coragem não é a ausência do medo. A coragem é o que sobra quando a motivação ultrapassa o medo. Porque medo temos todos. Mas o que eu tenho visto à minha volta é uma motivação que me emociona.

Vejo os fracos a fazerem-se fortes, vejo os fortes a transformarem-se em super-heróis. Mães de família a fazerem do Rambo um bebé chorão. Vejo gente com uma garra e com uma fibra, que me faz agradecer ao mundo por partilhar o ar que respiram.

Vejo uma união, uma coesão que parece um muro de escudos dos vikings. Se um cai, todos os outros juntam-se mais fortes. Já caíram alguns: “Deu positivo” e vão para casa desfeitos de cabisbaixo, não pela doença em si, mas porque por uns tempos não podem ajudar. Mas ajudam. E muito. Agarram-se aos livros, aos estudos infinitos, aos vídeos que saem a cada hora, e mastigam a “matéria” para todos nós.

Custa mais estar em casa, do que estar a trabalhar. Eu dei negativo. Foi das esperas mais dolorosas da minha vida. Nunca fiquei tão contente por poder trabalhar. A quarentena é um luxo a que nós não nos podemos dar. Assumimos que estamos infectados e separam-nos da nossa família e amigos, a sonhar com o dia em que voltemos a dar um abraço.

Todos nós já choramos. Quem não chorou aconselho seriamente que o faça. Mas por fora estamos a sorrir, estamos fortes, e estamos motivados.

A merda das máscaras e dos fatos que são quentes, desconfortáveis e fazem comichão. É um suplício que só tende a piorar.

É horrível ter de falar com os familiares pelo telefone. Imaginamos a ansiedade de quem está do outro lado da linha. Prometemos dar o nosso melhor, as pessoas sabem que sim. Falamos sempre a verdade. Mas não é fácil porque estamos todos a aprender. Apesar de devorarmos tudo o que da China e da Itália nos chega em termos de ciência (muito obrigado aos que fazem ciência no meio desta catástrofe! Obrigado), há sempre um caminho individual e de grupo que temos que ser nós a percorrer.

Isto assusta, principalmente pela projecção que podia ser um dos nossos. E não é nos ventiladores que isto me preocupa mais (também me preocupa), é nos recursos humanos. Formar médicos e enfermeiros e auxiliares em Cuidados Intensivos demora anos. Os que cá estão são incríveis, mas onde é que se vai buscar mais?

Isto assusta. Mas com toda a sinceridade assusta-me mais os danos colaterais deste confinamento. O impacto psicológico de quem não sai de casa, a violência doméstica, os que morrem por falta de afectos, os que vão para o desemprego e os que estão a passar fome. Pensem que mais do que nunca há uma linha que une a humanidade e só #vaificartudobem , se alguns tirarem os zeros das contas para dar aos mais pobres.

Deu-se a primeira alta dos Cuidados Intensivos. Estava ao lado dela quando a ligamos ao ventilador e quando passados uns dias lhe retiramos o ventilador para voltar a respirar sozinha. Se me vir um dia na rua, não vai saber quem eu sou, mas eu vou levá-la comigo para sempre. Sempre foi assim a vida de um Intensivista. A primeira batalha está ganha e vieram lágrimas das boas aos olhos a toda a equipa, mas a guerra ainda nem começou.

A coragem é o que sobra da motivação quando ultrapassa o medo. Motivem-se com o Amor ao ajudar quem mais precisa, hoje e sempre!


O PÚBLICO pediu um texto de opinião ao autor, que o publicou também nas redes sociais.