Portugueses em Timor: “Chamavam-nos ‘Malae’ (estrangeiro). Agora, chamam-nos ‘Corona Malae’”

Carlos Vilar é professor e dono de um hostel em Timor-Leste. Numa videochamada, falou ao PÚBLICO sobre o estado que se vive no país durante a pandemia do novo coronavírus.

Com a ameaça global de covid-19, a escola em que dava aulas fechou ainda antes da confirmação do primeiro infectado, conta ao PÚBLICO Carlos Vilar, residente em Timor-leste há quatro anos. Como o país ainda não tem capacidade para testar a população, "a insegurança de haver uma pessoa ou mais [infectadas] era grande”, explica, por isso decidiu também fechar o seu hostel. “Suponho que o meu último salário foi este e, portanto, isto vai complicar”.

O país, de fronteiras fechadas, recebe apenas um voo ao domingo, e quem chega nele, estrangeiro ou residente, é obrigado a cumprir 14 dias de quarentena. Mas a população não tem visto com bons olhos estas viagens. “Parte das comunidades não aceita que as pessoas cumpram a quarentena ao pé dessas mesmas comunidades. Em alguns lugares mais remotos, as pessoas vêem o estrangeiro como o transportador do vírus”, explica Carlos. Se antes a população tratava os estrangeiros por “malae”, agora chama-lhes, nem sempre a brincar, “corona malae”.  

Perante a hostilidade dos timorenses, José Ramos-Horta, o prémio Nobel da Paz e ex-presidente de Timor, pediu esta quarta-feira desculpas, enquanto cidadão timorense, pelas críticas que alguns compatriotas têm feito contra os cidadãos e agências estrangeiras. “Peço desculpas a todos os nossos hóspedes que trabalham nesta terra amada quando algum timorense vos desrespeita. Como cidadão de Timor-Leste curvo-me, baixo a cabeça, e peço-vos desculpas”, escreveu.

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