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Perdemos o controlo, e agora?

Agora que fomos quase todos chamados a parar, quase todos nos sentimos com menos controlo e, por isso mesmo, menos seguros e mais assustados. Para que consigamos aproveitar esta fase da melhor forma, devemos assumir o comando do nosso quotidiano.

De repente, fomos confrontados com a nossa fragilidade e com a fragilidade da humanidade, de repente, por força das circunstâncias, quase todos nos sentimos a perder o controlo. E, até aqui, muitos de nós aguentavam-se por força da “muleta” que a sensação de controlo nos trazia. Isto é, termos a ideia que conseguimos controlar mais ou menos o nosso dia-a-dia e o nosso futuro dá-nos uma certa sensação de segurança. Por isso, agora que fomos quase todos chamados a parar, quase todos nos sentimos com menos controlo e, por isso mesmo, menos seguros e mais assustados.

Nesta linha, assistimos de forma crescente à partilha de várias estratégias para ocupar o tempo, precisamente porque parar nos confronta connosco próprios, com as nossas angústias e com aqueles que estão à nossa volta. Porque, de repente, os casais passam mais tempo juntos, os pais estão mais tempo com os filhos, sem poder recorrer a elementos distractores para alimentar a relação, como jantar fora ou ir ao cinema. Assim, fica a nu tudo aquilo que nos une e que nos separa de nós próprios e dos outros.

No fundo, o controlo que tínhamos sobre o nosso dia-a-dia era, em grande parte, um falso controlo porque era um controlo externo, exercido pelo nosso trabalho, pela sociedade, pelos horários. Somos chamados a parar e a assumir nós o controlo, sem que as imposições externas nos digam a que horas fazer exercício ou a que horas trabalhar, por exemplo.

Temos de deixar cair algumas barreiras e criar pontes com aquilo que somos e com os nossos verdadeiros interesses e vontades. No fundo, aquilo que se passa é mais ou menos isto: tiraram-nos grande parte dos compromissos sociais e laborais e somos obrigados a pensar o que é que queremos fazer para ocupar o nosso tempo. E o desafio agora é não sucumbir a todas as sugestões externas que nos são dadas, mas sim àquilo que verdadeiramente é a nossa essência e de quem está ao nosso lado.

Para que consigamos aproveitar esta fase da melhor forma, devemos assumir o comando do nosso quotidiano, seguindo os seguintes pontos:

  • Criarmos as nossas próprias rotinas: é importante que estejamos conscientes que, nesta quarentena, não devemos trazer o ritmo frenético do dia-a-dia para dentro de casa, procurando fazer um sem fim de actividades que ocupem o tempo, mas sim organizar o nosso dia da nossa própria forma, fazendo o uso pleno da nossa liberdade de ser, respeitando, como é evidente, todos os compromissos que mantemos.
  • Permitirmo-nos a encontrar aquilo que é a nossa verdadeira essência: devemos deixar-nos parar, aproveitar este tempo para não fugirmos de nós próprios e nos sintonizarmos connosco.
  • Aproveitarmos para fazer tudo aquilo que até aqui não conseguíamos fazer porque o controlo externo não nos deixava esse tempo livre: mais do que ocupar o tempo por ocupar, devemos aproveitar para realizar todas as actividades que têm significado para nós e nos dão prazer.
  • Quem tem filhos, deve ser capaz de assumir o controlo, definido de forma clara as regras e rotinas e transmitindo com segurança as decisões diárias.
  • Controlarmos a nossa alimentação: com a angústia inerente a este contexto, é natural que possamos ter tendência para nos refugiarmos na comida, por isso é essencial alimentarmo-nos com consciência, de forma saudável e rica.
  • Gerir o medo associado à pandemia, colocando por palavras tudo aquilo que sentimos.
  • Planearmos o depois da pandemia: permite-nos sentirmo-nos mais seguros e tomarmos decisões mais conscientes que potenciem o nosso crescimento. 
  • Não culparmos a pandemia, ou outros, pela forma como estamos a utilizar os nossos dias: se assumirmos o comando, podemos, com toda a certeza, tornar estes dias fontes de rentabilidade e bem-estar no contexto seguro da nossa casa, mas para isso é essencial tomarmos consciência que o nosso dia depende de nós.

Pelas circunstâncias, é previsível que, após esta fase, alguns de nós se transformem e se reinventem. Estamos na fase turbulenta em que tudo fica mais confuso, mais difícil, não só pelo estado da saúde pública, mas pelo que esse estado implica para nós enquanto pessoas individuais e na relação com os outros. Se soubermos equilibrar todos os pólos, podemos utilizar a quarentena a nosso favor. Podemos, a partir dela, ter uma alavanca que nos permite reinventarmo-nos, crescer por dentro e chegar mais longe naquilo que são os nossos desafios. Esta fase turbulenta pode revelar a muitos de nós capacidades e brilhos internos até então desconhecidos.

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