Quando a ameaça é real, um homem refugia-se no teatro

O Mundo Novo avassalador e apocalíptico que Carlos J. Pessoa imaginara para o palco transformou-se numa tragicomédia apresentada por episódios. A partir desta quinta-feira, está no Vimeo e na RTP Play.

Teatro
Foto
dr

Para a 101.ª produção do Teatro da Garagem, Carlos J. Pessoa, director, encenador e autor dos espectáculos da companhia, escreveu um texto intitulado Mundo Novo. Era (e é) um espectáculo que seguia as pistas de um mundo “avassalador, confuso e apaixonante”, como anunciava a Garagem, uma exploração teatral do “mundo caleidoscópico em que se vivia, aquela euforia permanente, desacreditação de tudo, aceleração vertiginosa, cenários apocalípticos que surgiam todos os dias”, resume ao PÚBLICO Carlos J. Pessoa.

A estreia estava marcada para esta quinta-feira, no Teatro Taborda, em Lisboa, e a carreira deveria prolongar-se até 5 de Abril. Só que a crise pandémica que assola o mundo e alastrou a Portugal obrigou a cancelar as apresentações. Pelo menos, aquelas que deveriam acontecer no interior de uma sala de teatro, como habitualmente. Em vez de enfiar o projecto na gaveta, à espera de dias mais felizes, o Teatro da Garagem adaptou a peça que estava a ensaiar e manteve a data de estreia, trocando o palco pela partilha online – através do canal próprio no Vimeo e da plataforma RTP Play.

PÚBLICO -
Foto
Mundo Novo deveria ter sido um espectáculo de palco, mas o surto pandémico do novo coronavírus obrigou a uma reconfiguração total DR

A trama de Mundo Novo conta-se num só fôlego: “Há um tipo que tem uma crise familiar, que se sente sozinho e desacompanhado, e que em vez de se refugiar nos sonhos, como acontece em O Vagabundo dos Sonhos, de René Clair, se refugia no teatro”, descreve Carlos J. Pessoa. É a partir desta história simples que o Teatro da Garagem vai desenvolvendo, ao longo de 15 episódios, a reconfiguração da peça para o período de confinamento. Os episódios, de duração variável – o mais longo tem 22 minutos, mas os mais breves não chegam aos cinco – e apresentados a um ritmo diário de um ou dois, correspondem às cenas que compunham a peça escrita para o palco. “É característica do Teatro da Garagem que as cenas tenham uma certa autonomia, constituindo sempre pequenas cosmogonias de uma grande cosmogonia, em que a acção é frequentemente muito simples”, diz o autor e encenador. “Havendo essa ideia de trama muito mínima e perfeitamente clara, cada cena representa depois um estado de alma.”

Como acontece também amiúde com o Teatro da Garagem, as cenas de Mundo Novo têm designações tão extraordinárias quanto A Idade da Rede, O Teatro das Etimologias Zarolhas ou Em Paiã – segmento em que o protagonista embarca na ideia popular de sair da cidade e ir viver para o campo, onde construirá a casa dos seus sonhos, acabando por instalar-se em Paiã, nos subúrbios lisboetas, “numa estreita faixa entre edifícios, blocos de apartamentos e uma auto-estrada”. É um apontamento de humor – dos vários que vão deflagrando em Mundo Novo e que contrariam o mal-estar identificado nas circunstâncias iniciais do protagonista. Se a encenação pensada para palco estava dominada por uma contínua sensação de ameaça e “as grandes questões eram já tratadas de maneira muito irónica e muito explosiva”, no contexto destoutro modelo de apresentação a ameaça já se tornou real.

Intrusos uns dos outros

Ao refugiar-se num teatro, o protagonista de Mundo Novo, interpretado por Sílvio Vieira e chamado Dulcineio – outras há que respondem pelos nomes Unicórnio Millenial ou Pegada de Carbono na Rota da Rota da Seda –, resolve criar, “em contraposição à bolsa de Wall Street”, uma bolsa de personagens, pretexto para entrarem em cena os outros actores (Ana Palma, Inês Pereira, Pedro Miguel Jorge e Rita Monteiro) enquanto projecções de figuras que lhe são próximas – a mulher, os filhos, os amigos, etc. –, “dentro de um universo onírico associado ao imaginário de uma bolsa de valores”. Nos planos iniciais de Carlos J. Pessoa havia já uma ideia de confinamento e as personagens apareciam mascaradas de ratos de laboratório, rodeadas de paredes brancas e sem escape possível. Agora, sem cenário disponível, aquilo que o encenador engendrou foi filmar, a partir de sua casa, os actores nos seus ambientes de teletrabalho, reinventando as suas personagens a partir da especificidade da situação.

Nesse processo, e por força das recorrentes falhas de Internet ao longo destes dias em que a rede tem estado naturalmente sobrecarregada com um pico de comunicações, a rodagem das cenas optou por captar essas imperfeições e transformar o resultado em “algo muito granuloso, distorcido, com delay”, originando um particular objecto que cruza teatro com cinema e videoarte. “Somos um bocadinho intrusos da arte dos outros”, confessa Carlos J. Pessoa, “mas estamos a fazer qualquer coisa que nos mantém vivos”. E isso, nos tempos que correm, não é coisa que se possa menosprezar.