“Parece que alguém se esqueceu do aeroporto e de nós”

Técnicos de tráfego e escala do aeroporto Humberto Delgado preocupados com a sua segurança no trabalho. Estão proibidos de usar luvas e máscaras. ANA já implementou medição de temperatura às chegadas nos aeroportos de Lisboa e Porto.

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Miguel Manso
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Estão proibidos de usar luvas e máscaras, queixam-se da falta de gel desinfectante e de outras medidas de segurança sanitária. Os técnicos de tráfego de assistência em escala do Aeroporto Humberto Delgado, que estão em contacto directo com os passageiros em trânsito, temem pela sua saúde e pela propagação do novo coronavírus na única fronteira do país que continua aberta: a aérea.

“Os portos estão fechados, as fronteiras terrestres controladas, mas parece que alguém se esqueceu dos aeroportos e de nós”, desabafa uma técnica de tráfego de assistência em escala em declarações ao PÚBLICO. “Vamos os supermercados e está tudo devidamente organizado em termos de medidas de segurança, mas no aeroporto Humberto Delgado isso não acontece”, afirma.

Os técnicos de tráfego em escala são responsáveis por um sem-número de operações de assistência a passageiros nos aeroportos, dos balcões de check-in ao embarque e desembarque de pessoas e bagagem, passando pelo atendimento de reclamações e informações. “Estamos muito expostos, no balcão de serviço ao cliente, por onde passam todos os problemas dos passageiros, as pessoas ficam em cima umas das outras”, aponta.

No aeroporto Humberto Delgado, no domingo, viam-se os trabalhadores de limpeza com máscaras e luvas, os funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras a usar luvas, mas todo o restante pessoal visível trabalhava sem qualquer tipo de equipamento. Desinfectantes de mãos para o público são raros. “A ANA e a Groundforce proibiram o uso de luvas, há quem traga de casa, por sua iniciativa”, mas contra as regras, diz outra técnica de assistência ao PÚBLICO, sem querer identificar-se.

“Temos de manusear os passaportes e outros documentos dos passageiros, aquilo que fazemos é pedir-lhes que nos mostrem, sem lhes pegar. Mas estamos em contacto directo com as pessoas. Ainda ontem a representante de um grupo de passageiros estava a tocar-me no ombro… As pessoas querem ajuda e nós estamos cá para isso, mas…”, suspira.

Na passada sexta-feira, a Groundforce enviou a todos os funcionários a última informação sobre o coronavírus na qual dava conta das medidas de segurança adoptadas e confirmava a proibição: “Apesar de outras entidades da comunidade aeroportuária terem avançado com outras medidas, reforçamos que continuamos a seguir criteriosamente as recomendações das autoridades de saúde e mantemos a proibição do uso de máscaras e luvas, pois o uso de máscara só é aconselhado para os portadores (suspeitos ou confirmados) do coronavírus e não para todos os outros casos, tal como o uso de luvas se revela contraproducente e um foco de disseminação do vírus”.

As “medidas adicionais” que a empresa anunciava eram quase todos de regras de distanciamento físico: “Solicitação junto da ANA Aeroportos e das autoridades (polícia) da gestão da distância social obrigatória nas zonas de check-in e portas de embarque”; concentração dos voos em manga e em portas com capacidade de pré-embarque, para dar “mais espaço de distância para os passageiros” e encerramento de serviços como o lounge e de balcões, passando o atendimento a clientes a ser feito apenas por email ou telefone.

Aos técnicos de assistência em escala era apenas recomendado que não tocassem nos documentos dos passageiros, “devendo solicitar amavelmente ao passageiro que os manuseie para a necessária verificação e scan dos bilhetes”.

Ao PÚBLICO, fonte da ANA sublinhou outras medidas que estão a ser tomadas nos aeroportos nacionais: há avisos sonoros de dez em dez minutos, em várias línguas, a pedir que as pessoas mantenham a distância de segurança entre si em todos os espaços. A limpeza com produtos desinfectantes de longa duração foi reforçada, em particular nas portas de embarque.

Na sexta-feira começou a ser implementada, nos aeroportos de Lisboa e Porto, a medição de temperatura dos passageiros à chegada, através de um pórtico com sensor instalado no canal de recolha das bagagens. Equipamentos desse género vão ser instalados também nos aeroportos de Faro, Funchal e Ponta Delgada. Quando algum passageiro tem febre, é encaminhado para uma zona à parte onde é visto por equipas médicas especializadas.

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