Coronavírus: Farmácias denunciam preços elevados praticados por “empresas de ocasião”

A Associação Nacional de Farmácias diz que difícil acesso a paracetamol, máscaras, desinfectantes e até termómetros coloca em risco a assistências às pessoas e pede intervenção do Governo. Numa carta enviada ao primeiro-ministro as farmácias dizem que “ vêem-se forçadas a abandonar à sua sorte muitas pessoas”.

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ANF pede intervenção do Governo para repor abastecimento de produtos de primeira necessidade Nuno Ferreira Santos

A Associação Nacional de Farmácias (ANF) enviou uma carta ao primeiro-ministro, António Costa, a denunciar os preços elevados praticados por “empresas de ocasião” no que diz respeito a álcool gel, desinfectante, termómetros e máscaras, bens actualmente muito procurados devido à pandemia do coronavírus. Mas também falta paracetamol.

As farmácias dizem mesmo que, perante estas dificuldades no abastecimento, podem ser “forçadas a abandonar à sua sorte muitas pessoas”.

Nessa missiva, a ANF diz ao primeiro-ministro que enviou um documento de mais de cem páginas à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) com facturas e propostas comerciais apresentadas às farmácias por dezenas de empresas nacionais e importadoras, na sua maioria estranhas ao mercado de produtos farmacêuticos.

E faz uma descrição dos preços exagerados com os quais são diariamente confrontados. Frascos de 30 mililitros de álcool em gel a 5 euros, máscaras entre 7 euros e 38 euros, garrafões de cinco litros de desinfectante a 79 euros e termómetros a 97 euros são alguns dos preços de aquisição que estão a ser propostos às farmácias. 

A ANF pediu a intervenção do Governo com vista a repor o abastecimento de produtos de primeira necessidade para combater a crise sanitária provocada pelo coronavírus. “Máscaras, gel desinfectante, paracetamol, termómetros, matéria-prima para manipulados e equipamento de protecção individual desapareceram quase totalmente das farmácias”, alerta a direcção da ANF na carta a António Costa.

Não conseguem satisfazer necessidades

As farmácias “vêem-se forçadas a abandonar à sua sorte muitas pessoas, cujas necessidades não conseguem satisfazer”, descreve o documento, dando um claro sinal de que não têm os bens que actualmente são tão procurados e considerados necessários.

Para adquirirem esses produtos, “as farmácias têm de pagar preços especulativos e, mesmo assim, não conseguem adquirir quantidade suficiente” para garantir a segurança das suas próprias equipas e de instituições como lares de idosos. “As equipas das farmácias estão a trabalhar sem condições de segurança, porque não conseguimos equipamento suficiente para as proteger”, lê-se, na carta em que é sublinhado que o “mercado destes produtos deixou de funcionar”.

Além disso, a ANF alega que a facturação de muitas farmácias começou a cair em várias zonas do país, esperando-se uma nova crise no sector.

Mesmo assim, perante este cenário, a ANF recomendou às suas 2750 farmácias associadas que pratiquem margens de comercialização até ao limite de 17,5%, que se aplica aos medicamentos sujeitos a receita médica comparticipados.

“Sendo a margem legal das farmácias portuguesas a mais baixa da Europa, será inequívoco o contributo responsável e transparente da nossa rede no combate à pandemia”, lê-se numa circular da ANF enviada esta terça-feira às farmácias.

Há mais de uma semana que os inspectores da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão nas ruas a fiscalizar os preços dos produtos referidos pela ANF. Ainda esta terça-feira, a ASAE anunciou que identificou um importador e distribuidor de álcool gel de Lisboa por especulação de preços, que chegaram a atingir os 490%, e enviou o processo para o Ministério Público. “Em resultado da operação e com base na documentação analisada preliminarmente, a ASAE concluiu que o denunciado procedeu à venda de álcool gel, a preços díspares entre si, sem qualquer justificação, uma vez que a venda, durante o mês de Março, oscilou entre os 25 e os 150 euros”, diz a ASAE em comunicado.

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