Deputado do PS responde à Padaria Portuguesa: até vai beneficiar da onda de falências

Carlos Pereira, deputado socialista, compara cadeia de restauração às pequenas padarias de bairro e conclui que A Padaria Portuguesa vai sair a ganhar com a falência dos mais pequenos.

A Padaria Portuguesa
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A Padaria Portuguesa Fábio Augusto/ARQUIVO

Nuno Carvalho, sócio-gerente da cadeia de restauração A Padaria Portuguesa, até “pode ter razão” na carta aberta que escreveu ao ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, onde considera uma “mão-cheia de nada” o pacote de ajudas anunciadas pelo Governo para as empresas suportarem o impacto da crise trazida pela pandemia da covid-19. Mas, perspectiva o deputado socialista Carlos Pereira, A Padaria Portuguesa até vai beneficiar desta conjuntura negativa. Os negócios mais pequenos é que não.

“A Padaria Portuguesa tem a robustez e a dimensão para aproveitar os apoios, tem a liquidez para aguentar três meses de facturação a cair vertiginosamente, tem os contactos na banca para obter financiamentos de tesouraria robustos para aguentar meses, tem a capacidade negocial para negociar financiamentos baratos e tem a ajuda de especialistas, de vária ordem, para tirar todos os dividendos da crise e aproveitar todos os apoios”, escreveu o parlamentar do PS na página pessoal na rede social Facebook, num texto no qual compara a cadeia de restauração de Nuno Carvalho com a Mariazinha, uma pequena e familiar rede de padarias no Funchal.

“Até tem [Padaria Portuguesa] a capacidade de aproveitar a onda de falências de pequenas padarias e consolidar, daqui a um ano, a sua posição no mercado. Quem sabe num financiamento colossal da banca, abrindo mais ‘50 lojas’ que invadirão o mercado e exercerão novo domínio no sector, sem mariazinhas. Já a Mariazinha não tem nada disto e é para a Mariazinha que não me calarei para que todos os apoios sejam desenhados e equacionados”, escreve.

A Mariazinha, contextualiza o deputado, eleito pela Madeira, tem um longo historial de “determinação e empreendedorismo”, que vem de um tempo que ninguém sabia o que isso queria dizer”. Tem poucos funcionários – “mas gente de carne e osso que misturam o nervoso miudinho de apanhar com o vírus, numa qualquer ocasião desprevenida, com o nervoso mais graúdo de perder emprego, perder rendimento, deixar de ter dinheiro para alimentar os filhos e sustentar a família” – e poucos meios para enfrentar esta crise.

“A dona Mariazinha [nome da fundadora da empresa, falecida em 2011] não é o Nuno Carvalho e a sua padaria não é a Portuguesa. As preocupações da Padaria Portuguesa estão espalhadas pelo país. Isso mesmo foi bem tratado pelo departamento de marketing da companhia, cujo salário do seu director era capaz de pagar todos os funcionários da padaria Mariazinha”, diz Carlos Pereira, considerando que o teor da carta de Nuno Carvalho foi “engendrado pelos três gabinetes de advogados e (talvez) meia dúzia de consultores”.

Já a Mariazinha, continua o vice-presidente da bancada socialista em São Bento, não consegue nem soletrar “layoff”, e não pode arriscar dinheiro que acumulou para pagar um advogado ou um gabinete de contabilidade para perceber o que tem de fazer. “O dinheiro que poupou é para salvar a empresa e manter os seus funcionários. É uma questão de honra. De dever. De respeito social. Não a veremos no jornal, nem sequer à procura de deputados ou governantes”, sustenta, criticando a forma como os bancos olham para as pequenas empresas. “A banca trata-a com o desprezo dos pequeninos e não tem nenhuma capacidade para negociar. Não influencia ninguém, nem tem voz, mas, é preciso dizer, cria riqueza e emprego que não é só estatística.”

Se fechar, diz o deputado, provavelmente nunca mais abre. “Fecha e acaba a história romântica de alguém que subiu a pulso e criou o seu negócio. Acaba um bocadinho da concorrência à Padaria Portuguesa e termina a oportunidade para aquela meia-dúzia de pessoas que viviam daquilo que está senhora criou.”

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