Há médicos internados nos cuidados intensivos com covid-19, diz bastonário

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, diz que é necessário passar a incluir a profissão no registo dos doentes, para aferir o número total de clínicos infectados

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O bastonário diz que o acesso a equipamento pessoal é a situação mais crítica dos serviços de saúde Paulo Pimenta

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, disse esta manhã que há médicos infectados com SARS-CoV-2 e internados nos cuidados intensivos, sem precisar quantos são. Miguel Guimarães diz que já pediu à directora-geral da saúde, Graça Freitas, para incluir a profissão nos dados associados aos doentes, para que seja possível aferir quantos profissionais de saúde estão entre os infectados. Já a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, dissera, na sexta-feira, que havia 16 enfermeiros infectados e 50 a aguardar o resultado dos testes.

As declarações dos dois responsáveis foram prestadas ao programa Directo ao Assunto, da Rádio Observador. Na manhã desta segunda-feira, Miguel Guimarães disse que “há médicos internados [com covid-19] e nos cuidados intensivos também”, explicando que a doença não escolhe profissões e que é “normal” que isto aconteça, dada a exposição dos profissionais de saúde à doença. Para o evitar, só mesmo garantindo a sua protecção, através do uso do material necessário recomendado e o acesso a esse material é que é “crítico”, disse.

A dificuldade de acesso ao material de protecção individual - como máscaras adequadas - “é absolutamente crítica neste momento”, disse o bastonário, lembrando que a necessidade de garantir a existência deste material é contínua e não se resolve com a aquisição de alguns milhares de máscaras. “Quando o primeiro-ministro disse que tínhamos uma reserva de dois milhões de máscaras, isso não é nada, dois milhões gastam-se em dois dias, porque as pessoas têm de facto de andar protegidas”, disse Miguel Guimarães, precisando: “Precisamos de muitos milhões, daqui até ao fim de Maio ou de Junho”.

O outro factor no modo como vamos conseguir lidar com a doença, insistiu, é a capacidade de resposta dos cuidados intensivos. O bastonário disse esperar que em Portugal os médicos não tenham de escolher quem tem acesso a um ventilador e quem não tem, como está a acontecer em Itália ou Espanha. “Podemos correr esse risco, mas espero que não chegue a acontecer. Nesta crise toda, a parte mais dramática é essa. É verdadeiramente dramático o médico ter de decidir que doente vai viver e que doente não vai viver, por não ter equipamento”, disse.

As recomendações que deixa são que seja repensada a capacidade dos cuidados intensivos no país - o que, ressalvou, já está a acontecer - e que haja uma nova organização dos hospitais, nomeadamente, através da criação de “escalas rotativas, de quinze dias”, que permita o descanso de parte do pessoal de saúde, enquanto a outra parte trabalha, e garantindo, assim, que não faltará pessoal, ao longo da crise.

Pelo lado positivo, o bastonário salientou o facto de os hospitais estarem, neste momento, a receber menos doentes, não só pela decisão de terem cancelado todas as consultas, exames e cirurgias que não eram essenciais, como pela diminuição das pessoas que têm chegado às urgências. Segundo o Diário de Notícias este número diminuiu em 50%.