Geometria de vida: o Porto visto do ar

Ouvimos o silêncio nestas fotografias. E vemos a beleza das ruas e casas, da cidade. Encantamo-nos com a sua geometria vazia. Texto de Patrícia Carvalho e imagens de Nelson Garrido

Nelson Garrido
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Sabemos que é isto que está a acontecer, mas depois deparamo-nos com as imagens aéreas do Porto e o coração pára por um segundo. Para onde foi a cidade? Para onde foram as pessoas que enchem a Rua de Santa Catarina (e que bonita é a sua calçada, limpa de gente, vista assim de cima, como não a conhecia). Para onde foram os turistas que partilham o tabuleiro superior da Ponte Luiz I com o metro e atulham o tabuleiro inferior, cruzando o Douro e fazendo dele aquilo que é: não algo que separa, mas uma verdadeira ligação para a outra margem.

Para onde foram as pessoas das paragens dos autocarros, e aqueles que, a toda a hora, cortam caminho pelo centro do jardim da Rotunda da Boavista, para não terem de a contornar, partilhando ruas e semáforos com os automóveis? Onde estão o trânsito e os vereadores da câmara? Vêem aquele carro solitário estacionado no parque da autarquia, ali ao pé daquele chão tão bonito (que bonito) em frente à Igreja da Trindade? O parque costuma estar cheio das viaturas dos autarcas que gerem a vida da cidade. Mas hoje só lá está um. Que estranho.

Como pode a Avenida dos Aliados estar assim vazia numa segunda-feira de sol? E a Ponte do Infante tão sozinha, como se, afinal, não servisse para nada.

O coração não pode deixar de parar por um segundo. Como um soluço. Como um sobressalto por este vazio de vida que tomou conta de espaços que deviam estar a borbulhar de gente e barulho e movimento. Ouvimos o silêncio nestas fotografias. E vemos a beleza das ruas e casas. Não podemos, também, deixar de ver a beleza desta cidade, que assim se deixa observar como se fossemos pássaros que a visitássemos.

Encantamo-nos com a sua geometria. As linhas e os desenhos. Assim limpa de gente e de trânsito, parece que foi passada a pano. Como se se preparasse para uma festa. E percebemos, noutro suspiro, que estas linhas que nos oferece, esta geometria que parece tão perfeita, é, afinal, geometria de vida. De uma cidade que se despe, se mostra nua. Se esvazia toda, como é preciso. Preparando-se para a festa que há-de ser quando todos voltarmos a vivê-la como merece.

Nelson Garrido
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