Torne-se perito Editorial

A hora mais grave e mais nobre da União Europeia

Se há um momento para a Europa mostrar ao mundo e a si mesma que a união faz sentido, se há um tempo em que os cidadãos europeus esperam da sua comunidade uma resposta que os ajude a confiar no futuro, é este momento e é este tempo

A pandemia do coronavírus é um terrível teste para os países e será a prova de fogo crucial para a sobrevivência da União Europeia. Tudo está sujeito ao contágio da doença: a moeda única, o mercado interno, a livre circulação e, fundamentalmente, o espírito de comunidade que funciona como cola de qualquer projecto transnacional. Desta vez, e ao contrário da crise do euro, não há lugar para o “risco moral” da dívida que opôs os ricos “responsáveis” do Norte aos remediados “despesistas” do Sul. O coronavírus infecta igualmente finlandeses e alemães, romenos ou portugueses. Há neste infortúnio comum a possibilidade de se ambicionar uma estratégia que todos envolva e todos beneficie. Os sinais dos últimos dias não garantem que será esse o caminho escolhido.

A Comissão Europeia demorou a responder à crise, mas, até agora, as suas decisões e o protagonismo de Ursula von der Leyen estão longe de decepcionar. Bruxelas disponibilizará 37 mil milhões para a economia e para a produção de bens da área da Saúde. Vai criar uma reserva estratégica de equipamentos médicos e disponibilizá-los aos Estados em situação de carência, como hoje acontece com Itália e a Espanha. Instou os Estados-membros a proibir a exportação desses bens e equipamentos, tentando evitar negócios escandalosos como a venda por uma empresa italiana de 500 mil kits para testes aos Estados Unidos. Van der Leyen tem apelado aos governos para que flexibilizem os controlos fronteiriços aos transportes de mercadorias ou aos europeus que querem regressar aos seus países – e restringiu o acesso externo à União. E, ponto crucial, o Banco Central Europeu aprovou em duas fatias 870 mil milhões de euros para comprar dívida soberana, garantindo fazer “tudo o que for necessário para ajudar a área do euro a atravessar esta crise”.

Ainda é cedo para avaliarmos o efeito destas medidas. E é também cedo para percebermos se o fecho de fronteiras nos estados do Leste e na Alemanha se limitam a um indispensável controlo sanitário, como aconteceu entre Portugal e a Espanha, ou se apontam para um reforço das autarcias nacionais e dos sentimentos antieuropeus. Vamos ter de aguardar por estas respostas com a mesma ansiedade e capacidade de resistência com que assistimos à evolução da crise sanitária. Porque se há um momento para a Europa mostrar ao mundo e a si mesma que a união faz sentido, se há um tempo em que os cidadãos europeus esperam da sua comunidade uma resposta que os ajude a confiar no futuro, é este momento e é este tempo. Oxalá os líderes europeus estejam à altura dos extraordinários desafios que os esperam.

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