De quarentena como o resto da Itália, um poeta une o seu país — por telefone

Com Itália, epicentro do surto de covid-19 na Europa, sob dura quarentena, o poeta Franco Arminio decidiu deixar o seu contacto telefónico nas redes sociais para quem quisesse desabafar. Os relatos que lhe chegaram aos ouvidos são emocionantes e fazem temer o futuro de incerteza num país abalado pela doença.

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Franco Arminio, poeta italiano de 60 anos, que publicou o seu número de telemóvel nas redes sociais e convidou, quem quisesse, a ligar-lhe. Franco Arminio/DR

O poeta estava preso em casa, como toda a gente em Itália, a dormir pouco, agitado com uma sensação de emergência e apatia e a perguntar-se como preencher o tempo. Então, no fim-de-semana, publicou o seu número de telemóvel nas redes sociais. Era um “velho hipocondríaco”, disse, e queria falar. Qualquer um podia ligar-lhe. “Estou disponível todas as manhãs, das nove ao meio-dia”, escreveu Franco Arminio.

Nos dias seguintes, telefonema atrás de telefonema, Arminio recebeu um retrato íntimo da Itália sob a quarentena do coronavírus – de uma nação que está aborrecida, assustada, ansiosa, a pensar em tudo, desde a bela tranquilidade do dia-a-dia até à morte. Falaram-lhe de livros, de solidão e de árvores. Um apicultor contou-lhe que os pássaros estão “a cantar tranquilamente, no campo”. Um operário fabril falou-lhe que a sua fábrica tinha fechado. Um engenheiro revelou-lhe que tinha redescoberto o prazer de estar com os seus dois filhos.

O telefone de Arminio tocou.

– “Olá” – disse ele.

A autora da chamada apresentou-se como Luisa. “Estou a morar em frente ao hospital de Varese”, disse ela. “Acordo com o som dos helicópteros todas as manhãs.”

Recebeu mais de cem chamadas, de toda a Itália. Mas podiam vir de qualquer parte do mundo onde as pessoas estão a ver o vírus a desmontar as suas vidas, forçando-as a ficar dentro de quatro paredes, forçando-as a separarem-se das pessoas que amam. Uma pessoa disse a Arminio: “É estranho ver a desconfiança nos olhos das pessoas.” Outra assumiu: “Nestes dias, ando a aprender a viver comigo mesmo.” Um estudante em Roma lamentou: “Não sabemos quando vamos poder voltar a abraçar os nossos pais.”

“Algumas pessoas sentem-se sozinhas, assustadas, e sabem que eu também estou assustado”, conta Arminio, de 60 anos, ao Washington Post. “É como se quisessem sentir os calafrios em conjunto.”

Só em Itália, o coronavírus já matou mais de 4000 pessoas e infectou dezenas de milhares. Para os outros milhões, há uma sentimento de se ser obrigado a aguardar, talvez pelo pior, que está para vir. As pessoas cuidam das crianças, cozinham, vêem as notícias e indagam-se: o vírus ainda estará apenas a começar a perturbar as nossas vidas? “Não há soluções pré-programadas”, declara Arminio. “Eu tentei telefonemas.”

Como poeta, ele era conhecido o suficiente para ter digressões regulares, mas isso parou com o surto. Vinte e cinco dias na estrada, todos os meses, tornaram-se zero, e Arminio viu-se de regresso a casa, na aldeia de Bisaccia, no Aul, a contemplar as castanheiras no seu quintal, a ler Kafka, a sentir confusão pelo absurdo. Viu-se a pensar cada vez mais acerca do tema que há muito definia a sua poesia: o medo da morte.

Três décadas antes, tinha visto uma criança de oito anos morrer de um aneurisma cerebral – um acontecimento que levou a um ataque de pânico e a uma sensação, num dia em que estava sentado na cadeira do barbeiro, de que estaria também a morrer. Era fisicamente saudável, é claro, mas nos anos que se seguiram ficou a achar o resto do mundo demasiado despreocupado, demasiado rápido a ignorar o perigo.

Desta vez, porém, era a Itália e o mundo inteiro que pareciam estar a arder, e embora Arminio se sentisse aterrorizado, também sentia uma energia estranha, de comunidade – como se mais pessoas pudessem estar a começar a ver as coisas à sua maneira. “Estar distantes não é castigo”, escreveu um dia na sua página do Instagram, “mas sim uma oportunidade de nos sentirmos intensamente mais próximos, já que partilhamos a mesma ameaça”.

Era então quarta-feira de manhã, e o seu telefone começou a tocar. Primeiro foi Tommaso, de Treviso, que disse que trabalhava para uma empresa multinacional que tinha congelado a produção e que estava a considerar despedimentos. Depois foi Francesco, de Milão, que tentou imaginar com Arminio como o mundo poderia agora mudar.

Aí veio a terceira chamada: Rosa, de Elba, a ilha no Norte, onde Napoleão se exilou há dois séculos.

— “Como se sente?” – questionou Arminio.
— “Eu estou bem” – disse Rosa. “E o senhor?”

Arminio confessou que tinha estado “cansado e triste” na véspera mas que agora estava bem.

— “Preciso de falar com as pessoas, de lhes tocar, de partilhar o momento fisicamente, entende?” – perguntou Rosa, pouco depois.
— “É fundamental”, caracterizou Arminio. “E, nestes dias, não o é permitido fazer. É estranho.” 

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Arminio no seu escritório de casa, na aldeia de Bisaccia, no sul de Itália Franco Arminio/DR

Falaram mais sobre a ilha, e de como estavam a correr os telefonemas dele. Rosa achava que o seu principal problema era ser forçada a ficar em casa. Ela era um “espírito livre”, proclamava, mesmo aos 76 anos.

— “Sou viúva e, ultimamente, algo me está a acontecer, algo que eu nunca antes havia considerado   a ideia de ter outro homem comigo”, confessou Rosa. “E nestes dias em que nos dizem que não nos podemos abraçar, que não nos podemos beijar, eu quero mesmo beijar um homem”.

Ela riu-se e Arminio disse que era um belo desejo.

— “Mas a verdade é que eu sou muito exigente” – continuou ela. “Não é só o beijo que eu quero. É o beijo de um homem de que eu goste.”
— “Vamos guardar esses beijos para tempos melhores” – sugeriu Arminio. “Envio-lhe um beijão daqui.”
— “Obrigada” – agradeceu Rosa.
— “Ligue-me quando beijar alguém” – pediu Arminio. “E diga-me que tudo voltou ao normal.”

Chegaram mais chamadas: de um funcionário de um rent-a-car do aeroporto, cujo escritório tinha fechado; de uma estudante de Medicina que estava a ser empurrada para o campo de batalha sem ter feito os exames; de um homem que achava que o bom tempo, lindo, estava a dificultar ficar em casa. Arminio atribui às conversas uma nova energia criativa; tem publicado resumos breves no Instagram.

Planeava continuar a atender as chamadas até 3 de Abril, o fim programado do encerramento de Itália, mas cada vez mais parece que as restrições vão ser necessárias por mais tempo. Arminio tem chegado até a pensar que, em poucas semanas, as conversas podem vir a assumir um tom mais desesperado. Cada dia tem tido o peso de uma era inteira, destaca, com as redes sociais, a ansiedade, a reclusão. As suas próprias regras para aguentar incluem desligar o telefone depois das 22h.

“Depois de quatro ou cinco dias de reclusão, as pessoas já se perguntam que [raios] vai acontecer”, repara. “Estou muito preocupado.” “A Itália não está equipada”, declara. “Nem economicamente, nem do ponto de vista da tensão.”

Tem a sensação de que, quando o país aliviar as severas restrições às movimentações, vai haver outro período — uma “fase cinzenta”, apelida — em que o risco vai estar reduzido, mas não eliminado, e as pessoas ainda vão estar preocupadas e ainda vão precisar de alguém com quem conversar.

“Somos irmãos na desorientação”, afirma Arminio. “Algumas dessas pessoas, estou em crer, vão voltar a ligar-me.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post