EPA/CHRISTIAN BRUNA; ilustrações de Miguel Feraso Cabral

O vírus é o espelho de todos os nossos medos

Não estamos na Idade Média e já não vemos a doença como castigo divino. Mas, perante a calamidade, surgem “memórias arcaicas” e uma necessidade de encontrar uma explicação que dê sentido ao vírus e um sentido à vida depois dele. Ouvimos filósofos, pensadores, criadores. Como pensar neste tempo de “suspensão involuntária da vida”que nos impõe o coronavírus?

Olhamos pela janela para as ruas quase desertas, desviamo-nos dos outros na rua como se fossem uma bomba prestes a explodir, cruzamo-nos, durante os breves minutos que entramos na mercearia, com seres de luvas e máscaras na cara, como se fossem cirurgiões que tivessem interrompido uma operação para virem comprar cebolas. Sentimos que estamos num filme que vimos vezes sem conta no cinema e que de repente se tornou realidade. Atónitos e meio anestesiados, não conseguimos processar toda a informação. Em poucos dias, a pandemia do coronavírus tomou conta das nossas vidas.