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Rodrigo Costa Félix: “Precisamos de chamar mais poetas para o fado”

Tempo, que chega esta sexta-feira às plataformas digitais, é o álbum em que o fadista se afirma como autor e arrisca mais como intérprete.

Harrison Ford
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Rodrigo da Costa Félix fotografado para a capa do disco JORGE SIMÃO

Ao terceiro disco, o fadista Rodrigo da Costa Félix afirma-se mais como letrista e arrisca novos caminhos como intérprete. Tempo, que o próprio produziu com Tiago Torres da Silva, é um álbum que demorou a ser pensado e concretizado e chega esta sexta-feira às plataformas digitais, sucedendo aos anteriores Fados d’Alma (2007) e Fados de Amor (2012).

“O tempo que o disco demorou a ser pensado e preparado é uma das razões para se chamar Tempo”, diz Rodrigo da Costa Félix ao PÚBLICO. “Começámos a falar disto, a reunir repertório e a pensar em pessoas para convidar para escrever, há dois anos. E esse amadurecimento ajudou ao título.” Pela primeira vez, ele assina seis das 12 letras do disco (nos anteriores assinara duas em cada): “Sempre escrevi e gostei de escrever, mas é a primeira vez que assumo a vertente de letrista. Sempre fui muito exigente em relação àquilo que canto, à qualidade das letras, e nunca tive confiança suficiente no que escrevia para ser gravado. Mas agora reuni um conjunto de letras que achei que tinham alguma qualidade, mostrei algumas ao Tiago, e acabámos por escolher estas seis.”

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A capa do disco

Tiago Torres da Silva, que já tinha escrito para Rodrigo no disco anterior, assina aqui três temas: A sangue frio, com música de Pedro Jóia, Pra lá de cada beijo, com música de Valter Rolo, e Tempo, com música de Ivan Cardoso, músico de fado e violista. “É o primeiro tema com características de fado tradicional que o Ivan compõe. E o Tiago escreveu essa letra já depois de o disco ter título, por isso não foi o tema que deu nome ao disco, foi o disco que deu nome ao tema.” Quanto ao primeiro, que abre o disco, é mesmo uma entrada “a sangue frio”: “Sou completamente apaixonado por esse tema, acho-o fortíssimo, para mim é o poema mais extraordinário do Tiago. O Pedro fez essa música incrível, e achei que só fazia sentido se fosse tocado por ele. Eu canto numa tonalidade mais grave do que o normal e chegámos à conclusão de que tinha de ser assim. Porque é uma abordagem completamente diferente da minha parte, como cantor.”

Aliás, diz ele, “este é um disco diferente”: Apesar de assentar em fados tradicionais, e tem até mais do que os outros, exigiu muito mais de mim como intérprete. Por isso, abrir com esse tema é mesmo mostrar às pessoas que isto vai ser outra coisa.” E com uma curiosa coincidência: “Ao fazer o alinhamento, dei-me conta de que estava quase por ordem alfabética. Então pensei: vamos lá experimentar pôr isto por ordem alfabética, a ver como é que fica. E ficou bem.” De A a V: A sangue frio, Enganos, Lisboa é assim, Mais que tu, Não digas nada, Obscura sina, Pra lá de cada beijo, Redondilha, Sem fim, Tempo e Vieste tarde. A única excepção é o tema extra, Terra nossa, que fecha o disco: “Eu queria que fechasse o disco, e se entrasse na ordem alfabética ficava em décimo lugar. Por isso, assinalei-o como tema extra, que é uma desculpa para vir mesmo em último lugar.”

Há dois outros temas no disco com abordagens que sublinham diferenças. A começar por Lisboa é assim: “É um tema muito próximo do fado e a única diferença em termos de acompanhamento é o convite que eu fiz ao [músico cabo-verdiano] Jon Luz para tocar o cavaquinho. Porque quando li a letra do José Fialho Gouveia achei que aquilo soava a morna, tinha de ter uma sonoridade diferente, um ritmo mais quente, qualquer coisa que nos levasse para África ou para o Brasil. E pensei no Luiz Caracol, que é um compositor excepcional e a personificação deste estilo. Toda a música dele vive desta mistura.”

Obscura sina, com poema de Vasco Gato e com Tiago Machado ao piano, é outro: “É um fado tocado exclusivamente ao piano, porque achei que só assim faria sentido, e pedia uma abordagem interpretativa diferente. Porque não podendo deixar de dar o meu cunho de cantor de fado, senti que tinha de dar uma dor especial àquele tema. Fiquei muito feliz de ter gravado o Vasco, porque é um poeta extraordinário. E gostava muito que outras pessoas lhe pedissem poemas para gravar. Precisamos de recuperar o trabalho que a Amália fez, de chamar mais poetas para o fado. Porque estamos com muitos letristas e a aligeirar demasiado uma música que é profunda.”

Com Rodrigo estão, neste disco, os músicos que o acompanham: Henrique Leitão na guitarra portuguesa, Miguel Ramos na viola de fado e Paulo Paz no contrabaixo: “Estes são os músicos com quem eu tenho tocado nos últimos anos. E acredito muito neste tipo de parcerias e de intimidade: acho que faz sentido que quem grava possa depois ir para a estrada connosco, ou vice-versa. Para mim, que sou fadista, gravar um disco é sempre um momento difícil, uma meia verdade. Porque o fado vive da intuição e do improviso, do momento. E o disco é o registo de vários momentos. Mas se tivermos um maior conhecimento com os músicos, se trabalharmos bem em conjunto, isso acaba por transparecer para o disco e por valorizá-lo, como eu acho que aconteceu neste.”

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