Dos falsos médicos às apps: as burlas que aproveitam o coronavírus

Mensagens enganadoras, aplicações que lhe bloqueiam o telemóvel e angariações de fundos falsas são alguns dos esquemas mais comuns relacionados com a covid-19. A PSP afirma que tem registado um aumento de burlas digitais nas últimas semanas.

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Covid-19 tem sido tema central de “campanhas de ciberataques” Reuters/MARKO DJURICA

Estão a aumentar as situações de burla ou fraude associadas às necessidades dos cidadãos no contexto da pandemia do novo coronavírus.

O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) e a Polícia Judiciária emitiram, esta quinta-feira, um alerta conjunto  no qual afirmam que a covid-19 tem “sido seleccionado por um número elevado de agentes de ciberameaças” como tema central para as suas “campanhas de ciberataques” — situações que aumentaram desde o início de Fevereiro.

No comunicado, as entidades alertam para campanhas de phishing (que podem acontecer por e-mail, SMS ou através das redes sociais) e que têm como objectivo o roubo de dados pessoas do utilizador. As campanhas utilizam imagens de entidades oficiais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a UNICEF ou centros de investigação e laboratórios do sector da saúde, e partilham conteúdos alusivos à pandemia, inclusive ficheiros em anexo. “Orientam [o utilizador] para a captação de dados pessoais das vítimas ou para a infecção dos seus dispositivos com malware”, lê-se na nota da CNCS. 

Outros dos ataques mais comuns são os os esquemas de fraude digital que divulgam iniciativas de crowdsourcing para a recolha de donativos para falsas campanhas de compra de material médico ou de protecção pessoal (como máscaras, por exemplo).

O CNCS alerta também para o envio de mensagens que informam que estão a ser aplicadas “medidas extraordinários para o combate à covid-19” e que todos os cidadãos portugueses terão de ser vacinados — e arcar com os custos desta vacina. “Para tal, bastaria pagar uma determinada quantia indicada no SMS e através do registo no link enviado seriam posteriormente ressarcidos [pelo Governo]”, adverte aquela entidade.

"Aplicação Covid-19 Tracker: não confie nem instale"

Um dos últimos alertas deixados pelas duas entidades é para o perigo da aplicação Covid-19 Tracker, que promete aos utilizadores actualizações em tempo real sobre o novo coronavírus, mas que é, afinal, “um esquema de ramsomware”, um tipo de software nocivo que restringe o acesso ao sistema infectado com uma espécie de bloqueio e exige o pagamento de resgate em criptomoedas para que o acesso possa ser restabelecido.

O Centro Nacional de Cibersegurança avisa que existem várias “plataformas digitais e aplicações para dispositivos móveis que aparentam divulgar informação em real time [tempo real] sobre a pandemia” como, por exemplo, mapas dinâmicos de contágio que estão, na realidade, “orientados para a infecção de equipamentos com malware”.

A app Covid-19 Tracker convida os utilizadores de Android a instalar a aplicação através do Google Play. Depois de este processo estar completo, um vírus bloqueia o telemóvel e exige um resgate de cerca de 100 dólares (cerca de 93 euros) em bitcoin para que este seja desbloqueado.

O CNCB refere que se já tiver instalado esta aplicação e esteja a ser vítima deste tipo de esquema reporte o incidente às autoridades competentes.

Freguesias alertam moradores, PSP não tem registos

Nos últimos dias, duas juntas de freguesia de Lisboa alertaram os moradores para um aumento de episódios de roubos e burlas nas suas jurisdições. Em comunicado publicado na sua página do Facebook, a Junta de Freguesia de Arroios afirma que um grupo de pessoas vestidas com batas brancas anda a bater às portas e, fazendo-se passar por médicos, dizem que estar a realizar “rastreios à covid-19”. “O objectivo deste grupo é assaltar as casas. Não abra a porta”, alerta a autarquia.

Já a Junta de Freguesia de Santo António refere, também no Facebook, que “nenhum agente da EDP anda de porta em porta a propor mudar o contador para não pagar a luz, ou pagar a prestações” e que esse tipo de episódios são tentativas de burla.

Contactado pelo PÚBLICO, Nuno Carocha, porta-voz da Polícia de Segurança Pública (PSP), avança que aquela força de segurança tem conhecimento destas denúncias por parte de algumas juntas de freguesia lisboetas. Ressalvando que a PSP não tem registo de casos de fraudes ou furtos praticados no contexto da covid-19 por falsos funcionários ou falsos médicos, Nuno Carocha admite que, em muitos casos, “há pessoas que acabam por não denunciar este tipo de acontecimentos”. “Não temos nenhuma queixa, mas estamos a tentar perceber de onde vêm estes relatos”, referiu.

Ainda que não existam registo de burlas “porta a porta”, o porta-voz da PSP avança que tem sido registado um aumento de fraudes digitais, algo que “preocupa” a polícia. 

De acordo com Nuno Carocha, as fraudes mais comuns são casos de pessoas que compram artigos novos ou dispositivos electrónicos acabados de sair no mercado e que acabam por não os receber (ou por receber artigos que não correspondem ao que pagaram). “Há pessoas que ainda caem na burla do MB Way e acabam por dar acesso às suas contas”, explica Nuno Carocha. A PSP quer intervir neste campo “dentro de pouco tempo”.

A recomendação da CNCS é que os cidadãos tenham “extrema prudência no acesso, na recepção e na partilha de conteúdos digitais associados à temática da pandemia da covid-19, devendo dar-se prioridade a fontes oficiais e reputáveis de informação”.

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