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Feliz Dia do Pai, pai

Fui pai há pouco tempo. Lembro-me a primeira vez que vi os olhos da minha Benedita. Duas azeitonas, escuras e inquisitivas, com toda a luz deste mundo.

Sempre gostei de acreditar que viveria para sempre. Ninguém vive para sempre. É estranha a forma como os pequenos episódios nos marcam. Os episódios que isoladamente vistos não valem coisa nenhuma. Normalmente, temos uma mesma consciência que nos une nos momentos mais traumáticos. A morte de alguém. O nascimento de alguém. Os terrores da vivência. Somos mais humanos nesses momentos, não é? E sempre pensei que fossem esses os momentos que ficariam impressos na minha alma. Não podia estar mais enganado.

De uma forma ou de outra, acho que a vida nos vai desiludindo. Não, de todo. Não, pelo todo. Aos bocados, episódio a episódio. Mas fui-me desiludindo a mim próprio. O projecto da minha própria vida passou-me ao lado. Não sei se fui um falhado da vida, mas a verdade é que o tempo vai passando e não me vejo como um ser determinantemente especial.

Fui pai há pouco tempo. Lembro-me a primeira vez que vi os olhos da minha Benedita. Duas azeitonas, escuras e inquisitivas, com toda a luz deste mundo. Um amor intenso, certamente. Mas um medo assoberbante. Vi reflectidas, num simples segundo, todas as minhas imperfeições naquele primeiro olhar e, desde aí, tenho sempre a mesma prece contida: por favor, sê feliz! A força do querer é inquestionável e o verbo enche com essa crença inabalável. O caminho vai desgastando, o caminho vai sacrificando e o caminho vai, sobretudo, demonstrando que, entre ansiedade e stress, os momentos felizes são aqueles em que, lutando, conseguimos resistir. No meio de tudo, a mais simples e forte certeza. Se os meus olhos contavam os dias, a minha alma, essa, já a conhecia.

Filho és, pai serás. No meio destes dias que se repetem, não acabam e perduram, acabo por viver uma vida que é ainda menos minha. Hoje é Dia do Pai. E lembro-me de ti, sempre correcto, formal e austero, mas infundindo uma estabilidade de pêndulo, marcando o compasso, porto seguro para as tempestades dos outros, frágil casca de noz nos ventos dos próprios demónios. A idade levou-te os receios, melificou-te os gestos, deu palco à bondade que o rigor do método teimava em esconder, entre apatetadas brincadeiras com a tua neta. E eu vejo, sorrio e calo-me. Consciente que essa transformação de gestos é ocaso. Feliz por repisar os mesmos passos, entre diferenças, do teu caminho.

Fechados entre paredes que falam, ficamos os dois. À distância, aceita este abraço que seria desajeitado se estivéssemos juntos. Feliz Dia do Pai, pai.

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