Carla e Rui já estão “perto”, mas ainda há muitos portugueses “do outro lado do mundo”

Carla Mota e Rui Pinto, autores do blogue Viajar Entre Viagens, estavam na Austrália quando a covid-19 lhes interrompeu o ano sabático — e há vários dias que estão a caminho de casa.

Carla Mota e Rui Pinto no aeroporto de Heathrow
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Carla Mota e Rui Pinto no aeroporto de Heathrow Viajar Entre Viagens

Carla e Rui chegaram a Portugal no dia 20/03/2020

Quando deram por ela, Carla Mota e Rui Pinto estavam a trocar ideias num grupo de Instagram criado por pessoas que também estavam perdidas “do outro lado do mundo”. “Em pouco tempo, aquilo disparou porque todos íamos acrescentando gente que conhecíamos nas mesmas circunstâncias. Atingimos o limite de cem pessoas e passamos para um grupo no WhatsApp, onde agora estão à volta de 200 pessoas”, conta Carla, numa chamada de vídeo desde Heathrow, em Londres e depois de sucessivos voos que os aproximassem de casa.

“Há imensas pessoas sem resposta. Há dezenas de miúdos a viver em hotéis infestados [pela covid-19]”, sublinha Carla, que também teve que contornar a ineficácia das linhas de emergência colocadas à disposição pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Nenhum dos canais atende. E quando atendem não sabem como hão-de ajudar”, lamenta. “O grupo de WhatsApp foi criado para as pessoas se juntarem em grupos de portugueses e não ficarem sozinhas”, diz. Na grande maioria, confirma o casal, os utilizadores desse canal de ajuda improvisado são portugueses que estão nas Filipinas, na Indonésia, na Índia, na Austrália e no Peru.

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Viajar Entre Viagens

Ela é geógrafa e ele físico. E há 12 anos que percorrem o mundo de mochila às costas. Pelo caminho criaram o blogue Viajar Entre Viagens, onde vão partilhando as experiências em mais de 90 países. Nunca terão tido tanta vontade de chegar a casa como desta vez. Os contornos da pandemia fizeram com que encurtassem em seis meses o seu “ano sabático”, aquele em que se propunham “Descobrir o mundo com o coração”, uma “viagem de circum-navegação” agora interrompida.

Saíram de Portugal em Julho. Carla primeiro — foi à Gronelândia como líder da Nomad. Rui encontrou-se pouco depois com ela em Istambul. “A partir daí começamos a viajar os dois”, recorda o casal, que à hora desta entrevista tinha bilhetes Ryanair para algumas horas depois aterrar no Porto — “voo que não sabemos se vai acontecer...”.

PÚBLICO - Papua Nova Guiné
Papua Nova Guiné Viajar Entre Viagens
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Papua Nova Guiné Viajar Entre Viagens
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Papua Nova Guiné Viajar Entre Viagens
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Viajar Entre Viagens

Na etapa seguinte Carla e Rui passaram quatro meses na Indonésia, onde desenvolveram o projecto 4 Elementos (com a ajuda de uma Bolsa de Exploração Nomad), que através de quatro documentários (ar, água, fogo e ar) pretende descobrir uma série de tribos da região da Insulíndia, onde se incluem os territórios da Indonésia e Papua Nova Guiné.

Mordida por um gato nas Filipinas

Seguiu-se Timor, Papua Nova Guiné e Austrália. Tudo isto sem a companhia da covid-19. “Não se falava nada disso”, diz Carla. “Mas nas Filipinas começou-se a falar”. O casal português estava “mais ou menos tranquilo” até ao dia em que Carla foi mordida por um gato num hotel e teve que ser vacinada e tratada em conformidade. “Não fazia ideia, mas a raiva mata turistas todos os anos nas Filipinas. Usámos máscara pela primeira vez devido a bactérias hospitalares”.

Estávamos em Janeiro. E Carla recorda que “já se começava a falar da covid-19”. “Havia imensos chineses a queixar-se de serem vítimas de discriminação”. O surto passou a estar presente na viagem. Num ápice, nas Filipinas apareceram três casos entre turistas chineses, situação que espoletou uma série de medidas por parte de um governo musculado. “Começaram a fazer controlo sanitário nos transportes, mediam-nos a temperatura e obrigavam-nos a assinar um impresso em que atestávamos da nossa saúde”, descreve Carla. “Nunca mais houve nenhum caso nas Filipinas, que cancelou os voos para a China”.

PÚBLICO - Rui a nadar entre cardumes de sardinhas (Moalboal, Filipinas)
Rui a nadar entre cardumes de sardinhas (Moalboal, Filipinas)
PÚBLICO - Rui a nadar com uma tartaruga (Moalboal, Filipinas)
Rui a nadar com uma tartaruga (Moalboal, Filipinas)
PÚBLICO - Rui a nadar entre cardumes de sardinhas (Moalboal, Filipinas)
Rui a nadar entre cardumes de sardinhas (Moalboal, Filipinas)
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O cerco deles começou a apertar “quando se começou a falar da Europa”. Carla e Rui decidiram voar para a Austrália. Passaram a primeira semana na Tasmânia e a segunda no Sul. “Fizemos trekking. Não tínhamos Internet nem rede. Quando viemos do trekking é que percebemos o que se passava em Itália e em Espanha”.

Então deu-se o despertar para a realidade. O casal Viajar Entre Viagens, que vai partilhando as suas aventuras e desventuras no Instagram, tinha voo para a Nova Zelândia — e tinham que fazer contas à vida. “Lemos toda a informação disponível e vimos que a) não havia nenhum aviso aos portugueses b) não havia casos na Nova Zelândia.”

Em “casa”, em Portugal, os familiares mais próximos (os pais de ambos, do Porto e de São João da Madeira, têm mais de 70 anos) já “estavam todos em isolamento voluntário”. Carla recorda o que os familiares lhes disseram: “'Ficamos mais sossegados se ficarem aí'”.

Voaram rumo à Nova Zelândia, onde só permaneceram dois dias. Ao “soar de alarme” accionado por António Costa decidiram voltar a Portugal. “Estávamos a telefonar para casa duas ou três vezes por dia. Já não estávamos aqui de coração”, conta Carla. “Está na hora de ir”.

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Boracay, Filipinas Viajar Entre Viagens

Despertar para lavar as mãos

Compraram imediatamente os voos. Mas acabariam “traídos pelo fuso horário” — e pelo prazo de regresso estabelecido pelo Governo português. Resultado: chegaram ao Dubai fora da janela que lhes permitia voltar tranquilamente. Desenrascaram-se e começaram a procurar voos que lhes permitissem aproximar-se de casa. “Ainda não parámos em lado nenhum. Temos noção que quanto mais longe, mais difícil será voltar e mais riscos corremos”, dizem a partir de Londres, onde foram “obrigados” a aterrar.

Entre aviões e aeroportos, a covid-19, dizem, “é um jogo de oportunidades”. Estão munidos de “desinfectante, luvas e máscaras”. Mas têm noção de que é pouco. “Precisaríamos de um caixote cheio de material”, diz Carla, que tem o telemóvel a despertar de meia em meia hora “para lavar as mãos”. “Na Austrália entrou no avião um técnico de saúde que fez análises a um passageiro. Toda a gente saiu e o passageiro ficou lá dentro...”

Carla e Rui vivem em Guimarães. “Por teimosia”, Rui não quis cancelar os contratos de Água e de Luz. O casal já fez compras online — entregam no dia 24 de Março — e vai ficar “15 dias em isolamento total”. “Dá para sobreviver”.

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