No primeiro dia de escola à distância, são os professores a mostrar “vontade de aprender”

Milhares de docentes organizam-se online para perceberem como usar as tecnologias para continuar a ensinar. Ministério da Educação criou site para partilhar recursos e boas práticas.

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Rui Gaudêncio

Nunca tinha havido um dia como este nas escolas. Esta segunda-feira, sem alunos presentes e com pouquíssimos professores nas salas e corredores, as direcções dos agrupamentos tentaram responder ao desafio motivado pela suspensão das aulas presenciais, como parte do esforço de contenção da covid-19 em território nacional. Em suas casas, os professores procuravam aprender online a melhor forma de conseguirem manter o ensino, mesmo que os seus alunos estejam agora longe.

Uma conversa entre dois professores rapidamente se transformou numa dessas respostas. Vítor Bastos, professor de Geografia, e Paula Loureiro, professora de Inglês, criaram, no Facebook, o grupo “E-Learning - Apoio a professores”. O objectivo era o de dar apoio aos colegas que precisassem de fazer uma transição das suas matérias para um formato digital. Assim que o disponibilizaram, ao meio-dia de sábado, começaram a chegar, às centenas, os pedidos de acesso.

“Rapidamente percebemos que a adesão era superior à nossa capacidade de resposta”, conta Vítor Bastos, professor do Colégio Vasco da Gama, em Sintra, que além de Geografia, ensina Informática. Foram, por isso, chamados outros colegas que pudessem também dar assistência aos professores menos acostumados ao uso das tecnologias. Ao final da tarde desta segunda-feira, o grupo reunia cerca de 11. 400 pessoas.

Ali trocam ideias desde professores à procura de conhecimentos básicos – como perceber o funcionamento de plataformas de videoconferência ou a melhor forma de partilhar conteúdos áudio com os alunos, por exemplo – até especialistas em tecnologia e ensino à distância, dispostos a dar apoio especializado em diversas plataformas. “Nem todos temos as mesmas competências, mas todos temos vontade de aprender”, ilustra Vítor Bastos.

Entretanto, um dos especialistas dentro desse grupo, Jorge Braga, criou também o site Escola de Professores, destinado a auxiliar os docentes na utilização das plataformas da Microsoft para um contexto de ensino, em particular o Microsoft Teams. A multinacional norte-americana ofereceu 5000 licenças Office 365 a cada estabelecimento de ensino. O número de novas inscrições ao longo do dia de ontem fez com que o acesso tivesse estado mais lento do que o habitual.

A Escola Virtual da Porto Editora, tornada gratuita para professores e alunos esteve também inacessível ao início do dia face ao número de utilizadores superior ao normal. A empresa ultrapassou, entretanto, as dificuldades.

Além das respostas cooperativas ou do sector privado, há também uma resposta pública ao desafio que os professores têm pela frente nas próximas duas semanas. Durante o fim-de-semana, a Direcção-Geral da Educação criou o portal Apoios às Escolas, em colaboração com a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional, que esta segunda-feira foi para o ar.

Ali, reúne-se um conjunto de recursos para apoiar as escolas na utilização de metodologias de ensino à distância, de modo a “permitir dar continuidade aos processos de ensino e aprendizagem”, anuncia o Ministério da Educação, que promete “disponibilizar continuamente novos recursos” e “partilhar práticas” para que os alunos “continuem a aprender”.

Essa é uma das questões com que se debatem as escolas neste momento: assegurar que, mesmo à distância, os alunos continuam a trabalhar. “Nos casos de alunos e famílias comprometidas isso não será um problema. Mas o grande desafio é garantir que não deixamos nenhum aluno para trás”, adverte o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira.

O problema é maior do que o empenho de alunos e famílias. Também as desigualdades no acesso às tecnologias têm que ser levadas em conta, acrescenta aquele dirigente. “Nem toda a gente tem um computador ou telemóvel. Algumas famílias não têm sequer como garantir o acesso à internet”, acrescenta Filinto Lima, da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep).

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