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Relato de uma ida ao supermercado em tempos de covid-19

A fila já dava a volta ao quarteirão e as pessoas cumpriam zelosamente a chamada “distância de segurança”; algumas com máscara e luvas, outras aparentemente mais despreocupadas que gozavam com o tossicar de alguém, dizendo a alta voz: “Olha, este já tem coronavírus! O melhor é afastares-te!”.

Eram 9h30 quando estacionei o carro à porta do supermercado, que eu sabia abrir apenas dali a meia hora. Queria despachar-me o mais rapidamente possível de tudo o que queria comprar (pão, fruta e legumes frescos para congelar); por isso, tinha decidido que era preferível chegar mais cedo e fugir à “confusão”. Eu e mais cerca de 50 pessoas que tinham chegado antes de mim. Dali, seguiria para casa, antes do estado de emergência (que tenho quase a certeza será declarado amanhã, pelo Presidente da República. Ou, pelo menos, assim o espero, para que mais rapidamente este pesadelo acabe e possam ser menores os danos colaterais). Decidi que, face a tudo o que tenho lido, o melhor será acatar todas as determinações que os profissionais de saúde e especialistas deste estado de e em alerta esperam de mim e que vou barricar-me em casa até ser possível (e “por possível” entenda-se o dia em que os mantimentos acabarem e eu tiver de voltar novamente ao supermercado).

Sou professora e estou em casa, depois de terem fechado todas as escolas, em regime de teletrabalho. Teletrabalho, no meu caso, que trabalho numa escola inserida num Território Educativo de Intervenção Prioritária (Escola TEIP) é esperar —​ no verdadeiro sentido etimológico da palavra — que os meus alunos acedam ao email para verificar o plano de trabalho que lhes enviei e aguardar que me remetam dúvidas, pelo mesmo meio, e me devolvam depois o trabalho, que eu corrigirei e cujo feedback lhes remeterei, no final. Até aqui, nada de mais; apenas mais um constrangimento à minha prática, dos tantos que tento diariamente vencer. Por isso, quando oiço falar de plataformas digitais colocadas gratuitamente à disposição de alunos e professores, não posso deixar de sentir a injustiça das assimetrias de um país, em pleno século XXI; ansiando, serenamente, que pelo menos 50% dos meus alunos tenham um computador para aceder ao plano que lhes enviei.

A fila já dava a volta ao quarteirão e as pessoas cumpriam zelosamente a chamada “distância de segurança”; algumas com máscara e luvas, outras aparentemente mais despreocupadas que gozavam com o tossicar de alguém, dizendo a alta voz: “Olha, este já tem coronavírus! O melhor é afastares-te!” e eu, que julgo enquadrar-me no meio destas duas posições. Em casa, decidira que levaria o menor número de coisas possível para a rua: tirei o relógio, larguei a mala e muni-me de uma fanny pack. Apenas com os cartões de débito, cartão de cidadão e carta de condução; um frasco de álcool gel ainda do tempo da gripe das aves (que desconfio já estar fora da validade) e um par de luvas para calçar quando entrar no supermercado. Não tenciono levar carrinho de compras, tocarei o menos possível em tudo e, depois de arrumar as compras no carro, deitarei as luvas no caixote, embrulhando-as de fora para dentro, como manda a Direcção-Geral da Saúde.

Na meia hora em que aguardei na fila (que crescera atrás de mim desmesuradamente), não pude deixar de me sentir como se estivesse numa fila qualquer de racionamento durante a guerra (um tempo que eu não vivi, mas que vi, inúmeras vezes, nas conversas da minha mãe com os seus irmãos sobre a sua infância e em todos os filmes a que assisti no cinema). Quando finalmente entrei no supermercado, não sei o que sentiram as outras pessoas, mas eu confundi-me com a voz dos caixas, ao microfone da loja, mandando-nos apressar, porque outras pessoas esperavam na fila que se avolumava no exterior, e acabei por não trazer alguns dos itens que pensara comprar e por vir agarrada a um saco de batatas e a duas couves, como se aquilo fosse o bem mais precioso que eu pudesse trazer dali.

Chegada a casa, descalcei-me à entrada, despejei o que tinha em cima da mesa e o meu marido arrumou tudo, enquanto eu me despia e enrolava a minha roupa de fora para dentro, numa trouxa, para colocar de seguida na máquina, e me enfiava novamente na banheira para um duche integral.

Tenho medo deste medo que se instalou entre nós. Da procura pelo imaculado, da exaustão pela defesa dos meus (sejam filhos, sejam pais). Sinto-me em guerra, num cenário pré-apocalíptico, em que os profetas dos media debitam fórmulas matemáticas que desenham o futuro da humanidade, no cenário mais negro de todos os livros jamais lidos (e garanto-vos que eu já li alguns).

Sou mãe da geração que mais teve; filha da que mais lutou por direito básicos como a alimentação, a salubridade e a Educação. Aos meus filhos quero oferecer o mundo pleno de realizações, de sonhos que não permitem fracassos; aos meus pais, o descanso merecido, depois de tudo o que me deram. E a verdade é que me sinto incapaz de realizar qualquer um desses feitos a que me proponho. Sinto-me em guerra, assistindo às notícias que correm na televisão, na internet e nos grupos de WhatsApp que debitam memes como se procurassem pelo riso vencer o medo que a todos assiste, em diferentes medidas. E sinto-me injustiçada porque, nesta guerra, o meu inimigo pode ser o meu vizinho do lado, a senhora da caixa do supermercado, o homem da empresa de engomar que me vai trazer hoje, pela última vez, a minha própria roupa e ela pode vir suja de um mal sem rosto. E posso ser eu. E é isso, julgo eu, que mais assusta.

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