LUSA/MICHELE TANTUSSI
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LUSA/MICHELE TANTUSSI

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Em Inglaterra ninguém arreda pé

As escolas não fecham, os serviços não fecham, os restaurantes, pubs e bares não fecham, as empresas também não e a ideia vigente é a de que podemos, e devemos, ficar todos doentes com o novo coronavírus, desta feita garantindo a imunidade de todo um povo. Uma ideia rocambolesca e perigosa.

Pediram-me para escrever sobre o vírus em Inglaterra e como é que nos está a afectar, mas, como a ansiedade por estes lados é tão inglesa como portuguesa, não sei o que escrever.

Para além disso, e tendo em conta que o “Brexit” é um rebuçado ao pé disto, se já toda a gente estava farta de ouvir falar do “Brexit”, o que dizer então do novo coronavírus? Por isso não sei nada sobre o coronavírus, não quero saber sobre o coronavírus e tenho raiva de quem sabe sobre o coronavírus.

As férias da Páscoa? Nem de propósito, no Sul de Itália: já foste. Recebemos hoje um e-mail da British Airways a convidar-nos, livre de quaisquer custos extras, a alterar a data da nossa viagem a Nápoles. Vamos alterar, para a próxima Páscoa (e por aí adiante, que para o ano logo se vê). De caminho, já contactámos o hotel e oferecem-nos um voucher no valor total da reserva, também para o ano que vem. 

Não há outro remédio, não há outra solução, viajar de avião para onde quer que seja, neste momento, seja para casa ou não, é garantia de não podermos regressar — e de não podermos regressar já tivemos quanto baste, aquando da tempestade de areia em Lanzarote há um mês. O céu? Está em Lanzarote, nos Jameos del Agua. Mas isso são outras conversas para outra crónica, a que nunca escreverei: vejam com os vossos olhos, por favor, em Lanzarote.

Entretanto, passámos o domingo inteiro de supermercado em supermercado à procura de ovos, sim, ovos, esgotaram, assim como esgotou o papel higiénico, o arroz, o pão, os anti-inflamatórios, o leite, fruto da avidez e do egoísmo universal, de modos que, comprando um rolo aqui, um ovo ali, um quilo de arroz acolá, lá conseguimos trazer para casa o essencial para uma semana de trabalho, mais uma.

Sim, porque em Inglaterra ninguém arreda pé, as escolas não fecham, os serviços não fecham, os restaurantes, pubs e bares não fecham, as empresas também não e a ideia vigente é a de que podemos, e devemos, ficar todos doentes, desta feita garantindo a imunidade de todo um povo. Chamam a isto a imunidade de grupo, ou a imunidade do rebanho. Uma ovelha olha-me de lado, do lado de lá do espelho. 

Em Inglaterra, a vida continua como sempre, como se nada fosse, e, como se nada fosse, todos os dias continuamos a ir para o trabalho, qual rebanho domesticado onde ninguém pia e todos balem, e não fosse o facto de as chefias não colocarem os pés nos empregos, ao invés, “trabalhando” a partir de casa, e talvez acreditássemos nesta patranha mirabolante da imunidade de grupo. 

Ao melhor estilo da aldeia gaulesa, à custa de uma geração inteira a brincar à selecção natural e à sobrevivência do mais forte, os ingleses pretendem mostrar ao resto do mundo, e em contraposição com o resto do mundo, como já vem sendo seu hábito, o significado de, hoje e sempre, resistir ao invasor. 

Tal ideia, tão rocambolesca como perigosa, só faz sentido num país onde a aristocracia marca a linha entre quem merece e não merece viver. Tal ideia não é senão o pináculo da cobardia vestida a sangue azul, o capitão é o primeiro a sair do barco e que se lixem as mulheres e as crianças, mulheres há muitas e crianças também, mas como capitão há só um, ali vai ele a saltar borda para a segurança e conforto do seu umbigo.

Entretanto, milhões preparam-se para morrer de pé em nome desta meia dúzia de criaturas entre continências e hinos à pátria e por mais que me belisque não consigo deixar de acreditar nestes olhos e no tamanho da ignorância.

As minhas últimas palavras vão para quem mais quero. Espero que estejam todos bem. E, sim, já dei o nome para, voluntariamente, contrair o vírus e assim ajudar ao desenvolvimento de uma vacina. Não sou o único. Muitos mais já mostraram igual vontade. Ficar doente de uma vez por todas é, e será sempre, em tudo melhor do que viver ad aeternum no medo e na desconfiança contínua do outro, sem culpa nenhuma de se sentar ao meu lado a caminho da vida.

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