Opinião

Isolamento social: um teste à saúde mental das mães

Deixem-me dizer que sim, é bom passar tempo em família, mas nunca nestas condições. Convém que não nos esqueçamos que estamos em casa com os nossos filhos porque há uma pandemia lá fora.

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Kelly Sikkema/Unsplash

Adormecemos e acordamos a pensar no mesmo. Passamos as manhãs em suspenso e chegamos a fazer apostas com amigos sobre quantos casos confirmados teremos. Perto do meio-dia, quando os dados oficiais são conhecidos, calculamos percentagens e comparamos a evolução do número de casos com outros países. Os exemplos de Itália e de Espanha angustiam-nos. Mas somos mães e, por isso, respiramos fundo e abrimos as janelas para que o sol entre e o medo saía.

Dizemos aos nossos filhos que vai ficar tudo bem, que estão protegidos em casa. Cumprimos tudo aquilo que a Direcção-Geral de Saúde nos pede e damos por nós a cantar os parabéns a você enquanto os ajudamos a lavar as mãos, tal como aprenderam na escola. Somos rigorosas no isolamento social porque sabemos que é uma responsabilidade de todos e ensinamo-los a dizer, ao melhor estilo Dartacão da nossa infância, que agora lutamos “um por todos e todos por um”. Ainda assim, o nosso coração aperta cada vez que nos perguntam porque é que não podem ir a casa dos avós.

Os últimos dias foram de ajuste para a esmagadora maioria das famílias portuguesas. Com o encerramento das escolas estamos agora em casa com os nossos filhos e, acreditem, isto é muito mais difícil do que parece. Antes que venham já atirar pedras e atacar com os costumeiros chavões de quem se acha a última bolacha do pacote no que à maternidade diz respeito, deixem-me dizer que sim, é bom passar tempo em família, mas nunca nestas condições. Convém que não nos esqueçamos que estamos em casa com os nossos filhos porque há uma pandemia lá fora.

Entretanto, as redes sociais estão cheias de listas com sugestões para entreter as crianças e a maioria das mães tem-se desdobrado na tentativa de manter uma rotina divertida para os filhos. Arrisco até dizer que temos dedicado tanto tempo a essa tarefa que, para nós, não tem sobrado nenhum. Sabem, confesso que me tenho sentido uma espécie de Sísifo. A grande diferença é que, em vez de empurrar uma pedra até ao topo de uma colina, arrumo brinquedos, invento actividades, tento driblar birras e passo mais horas na cozinha do que habitualmente. Sempre assim, todos os dias igual.

A minha casa está transformada em qualquer coisa que não sei sequer descrever. Arrumo de um lado e eles desarrumam do outro. Aspiro as migalhas do sofá e eles enchem o chão da cozinha de banana esmagada… Suponho que, mais cedo ou mais tarde, vou acabar por desistir e deixar o coração ao largo.

Ainda só passaram sete dias e já me sinto cansada. E digo-o sem medos e sem peso na consciência. Estar fechada em casa com duas crianças pequenas é desgastante, ponto. Além de que tenho saudades das pequenas coisas que fazia e que me permitiam ser mais do que mãe durante algumas horas. Até da voz do meu PT a dizer “são 20 burpees pelo atraso” eu sinto falta…

Mas sabem que mais? Dure este isolamento social o tempo que durar, transforme-se ou não em quarentena obrigatória, vou cumpri-lo com o maior rigor possível. Pelos meus filhos, pelos meus pais, mas também pelos filhos e pelos pais dos outros. O inimigo pode ser invisível mas é comum e somente juntos conseguiremos voltar a respirar sem sentir o medo ao fundo. Se a minha sanidade mental vai ser posta à prova? Seguramente. Se vou dizer muitas vezes que estou exausta e não aguento mais? Não tenho dúvidas. Mas quando isto tudo acabar vou estar orgulhosa por saber que, aqui em casa, fizemos a nossa parte.