Diário de um intensivista

O vírus do bem comum

Vou trabalhar ao lado dos meus, nos Cuidados Intensivos, com um orgulho que não cabe em mim por trabalhar na melhor equipa do planeta, para salvar os que estão entre a vida e morte. Que é o que sempre fizemos e sempre vamos fazer.

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Adriano Miranda

Nunca tínhamos ouvido tanta gente a falar do bem comum. Há um vírus que reforça a fragilidade da vida humana e há um vírus do bem comum. É incrível como este vírus está a contaminar tanta gente. É incrível como está a alterar os comportamentos individuais. É incrível como este vírus julga os que por ele não foram infectados, é incrível como é altamente contagioso. Castigamos, acusamos, ameaçamos os que por ele não se deixam infectar. Pedimos ao mundo que nos ajude a gritar aos berros que é preciso pensar no bem comum.

Mas quanto tempo durará esta infecção? Será que rapidamente vamos ficar todos imunes?

Eu peço, desde logo, imensa desculpa por não me conseguir separar em pessoas diferentes, em pensamentos desconexos da minha realidade, ou em julgamentos parcelados e incoerentes. Não consigo. A minha opinião sobre esta tragédia mistura-se com as memórias que teimo em não esquecer.

Não me esqueço que no Iémen olhei nos olhos famílias inteiras que perderam irmãos, filhos e pais, e braços e pernas, no meio de milhares de crianças a morrer à fome. Não me esqueço que no Sudão do Sul todos os dias vi crianças a morrer de malária, e todos os dias via a dor no olhar das mães a levar os corpos sem vida dos meninos para casa.

Não me esqueço que na Síria, no meio das bombas, vi o reaparecimento da poliomielite (outrora erradicada) que mata ou incapacita crianças para o resto das vidas. Não me esqueço que no Paquistão, num mês, morreram-me nas mãos dez mulheres por hemorragia pós-parto. A esmagadora maioria dos médicos da minha área nunca viu isto uma única vez.

Não me esqueço que o coronavírus não entra na prisão de Faixa de Gaza, porque também não entra o vírus do bem comum. Não me esqueço que a duração da(s) guerra(s) do Afeganistão anda, lado a lado, com a esperança média de vida daquele país.

Não me esqueço do que já chorei por ver que mais ninguém chora por eles. Não me esqueço que apenas vi uma pontinha do icebergue, não me esqueço que já andei tantas vezes no limite da sanidade mental a pedir com jeitinho, sem revolta e sem julgamentos que pensem no bem comum.

Não me esqueço que quando me perguntam como são os Cuidados Intensivos nas minhas missões a resposta é: “Não há. Os que deles precisam, morrem!” Que é exactamente o que vai acontecer quando/se este coronavírus chegar a uma fatia enormíssima da população mundial, onde esbarra o vírus do bem comum.

Várias pessoas dizem-me que a minha experiência em cenários de guerra vai ser muito útil. Pois. Não sei. O futuro o dirá. É verdade que já vi de muito perto dez das piores guerras dos últimos tempos. Mas eu nunca fiz parte delas.

Com o meu risco posso eu bem, e nunca foi a vida dos meus que esteve em risco. As emoções que trago comigo são das histórias dos outros, que eu tento contar ao mundo. Há uma gestão de emoções que tem muitas semelhanças, sem dúvida, e espero ser útil nesse sentido também.

Mas há uma coisa onde eu encontro um paralelismo inacreditável, no que à gestão de vítimas de uma guerra diz respeito. Não são as bombas e os tiros que matam. Esses também matam, mas pouco em termos percentuais. O que mata milhares, e às vezes milhões, são os danos colaterais. É da pobreza de recursos, de infra-estruturas, de material e medicamentos para tudo e mais alguma coisa, e da falta de pessoas válidas para trabalhar, que se morre numa guerra. Isso é que mata 99% das vítimas de uma guerra. Mas se não houvesse bombas e tiros, não haveria danos colaterais.

E quais vão ser os danos colaterais desta “guerra” que vivemos agora?

Há uma falácia no ar, que isto vão ser duas semanas mais complicadas. Esqueçam isso. Vão ser no mínimo dois a três meses de clausura. Vai destruir a economia de uma forma que não tem precedentes. Vão ser empresas a cair como baralho de cartas. Desemprego, pobreza, fome, agitação social. Os ricos vão ficar menos ricos, os médios vão aguentar no limite, os pobres vão para a rua. E os que estão na rua vão morrer à fome. Os mais frágeis são os que vão sofrer mais.

Quando o cinto aperta, quem mais vai sofrer são as Organizações Não Governamentais. A ajuda humanitária, a tal do bem comum, é a que mais sofre. A nível local e internacional. Os pobres, os velhos, os incapacitados, os doentes, etc., etc.... Quantas pessoas se mata ao destruir a economia? Será que a cura não vai matar muito mais que a doença? Sei que quem tem mais no bolso vai achar que eu sou um criminoso, e quem já amanhã pode ir viver para debaixo da ponte vai perceber melhor porque vos questiono. Crucifiquem-me à vontade por fazer esta pergunta.

Mas vou aceitar. Sou democrata. Aceito a liderança de quem sabe mais do que eu. Tenho convicções fortes, mas sempre um espaço grande para, humildemente, poder estar errado. Sou um jogador de equipa e, na verdade, pouco sei sobre os dados todos desta equação. Acho que ninguém sabe. E vou trabalhar ao lado dos meus, nos Cuidados Intensivos, com um orgulho que não cabe em mim por trabalhar na melhor equipa do planeta, para salvar os que estão entre a vida e morte. Que é o que sempre fizemos e sempre vamos fazer.

Só que, desta vez, a trabalhar a dobrar ou a triplicar, a formar à pressa os que puderem ajudar e, cheios de medo, se a nossa função não estará a pôr em risco as nossas vidas e daqueles pelos quais dávamos a vida, porque somos o grupo de maior risco.

Vão ser tempos de emoções muito fortes, mas o ser humano adapta-se e segue em frente. E das lágrimas passará aos sorrisos. Eu nem sempre confio em mim, mas confio até ao fim dos tempos na equipa em que trabalho, pela competência, organização, saber médico, resiliência, poder de impacto e muita, muita humanidade a cada acção. De médicos, enfermeiros, auxiliares, profissionais de limpeza, administrativos, técnicos, farmacêuticos, psicólogos, nutricionistas, e muitos mais que me estou a esquecer.

Já dei de caras com o burnout duas vezes na minha vida, no Paquistão e no Iémen, e garanto-vos que é difícil de gerir as emoções. Falem sobre as vossas emoções. É bom ver homens e mulheres fortes a chorar.

Mas vamos ver também que no meio da dor, do egoísmo e da hipocrisia, aparecerá o melhor de muitos seres humanos, os verdadeiramente bons. E, só por estes, vale a pena ver o mundo girar. Obrigado por me inspirarem.

Vamos ver como responde a medicina privada no maior desafio de saúde dos nossos tempos. Para já tem servido para fazer dinheiro às custas dos testes para ansiosos, testes estes que fazem muita falta no público. Quando isto passar, não se esqueçam onde se faz a verdadeira medicina, e cada vez que se alimenta a privada se destrói o Serviço Nacional de Saúde. Não se esqueçam.

Agora sentimos o que é estar do lado dos discriminados. Temo que as consequências políticas e ideológicas vão ser catastróficas. Porque “eles” agora estão caladinhos, mas depois vão gritar pela culpa dos estrangeiros e dos estranhos. Dos estranhamente iguais a nós. Veremos o que sobra daqui. O mundo dos que querem as fronteiras fechadas ou o mundo dos que vêem que estes (e outros) problemas só se resolvem se pensarmos como unos. Já percebemos que para salvar o planeta temos de nos unir, talvez agora se veja que nunca haverá qualquer sustentabilidade com tanta desigualdade.

Já fiz várias promessas resolutivas a mim próprio para quando isto acabar. Vão doer-me, mas acho que é pelo melhor. Espero que façam o mesmo, que levem este bem comum até ao fim dos tempos, que ajudem os que já não estão a receber salário, que ajudem os que vão para o desemprego, os que morrem à fome, os que em todas as partes do mundo estão a ser infectados pelo coronavírus, mas não pelo vírus do bem comum.

Agora que a morte de tantos nos parece tão próxima, não poupem na bondade, no carinho, no cuidado, no amor e na compaixão. Não deixem palavras bonitas por dizer, não deixem pazes por fazer, não deixem que a última palavra tenha sido amarga. Estamos todos a sofrer.

Façam a economia girar. Cada vez que lavarem as mãos, abram o vosso coração àqueles que não têm e que vão ficar sem água em casa. Pensem na saúde como um bem para todos. Eu vou ao supermercado com calma, comprar o que preciso. E quando não houver, prometo que vou trabalhar na mesma, com fome. E isto vai durar.

Espero que o vírus do bem comum tenha vindo para ficar, espero que me perdoem por dizer a minha opinião mastigada com tantas dores, e espero do fundo do coração estar errado. Todos somos vítimas das nossas incoerências (eu, tantas vezes!), mas, num momento de grandes reflexões, façam-nas de coração aberto, escrevam num papel e façam-nas durar.

Animem-se. O vírus passa. Esperemos que o bem comum não.


​O PÚBLICO pediu um texto de opinião ao autor, que o publicou também nas redes sociais.

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