Ficar em casa

Ler é cuidar de nós em tempos de pandemia

Resolver problemas através da leitura é a proposta da biblioterapia. Ao longo das próximas semanas, Sandra Barão Nobre dará algumas sugestões para ler em casa.

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Ler regularmente contribui para o nosso bem-estar físico, mental e social. Porém, a biblioterapia vai além na exploração do potencial transformador da leitura. A biblioterapia define-se, resumidamente, como “um método facilitador do desenvolvimento pessoal e da resolução de problemas através da leitura”, o que é possível graças à interacção dinâmica que se estabelece entre a personalidade do leitor e o texto. É esta fusão do leitor com o livro que abre portas à reflexão, à introspecção, ao autoconhecimento e ao reajustar de atitudes e comportamentos.

As leituras recomendadas pelos biblioterapeutas pretendem catalisar a mudança através:

  1. da identificação com os personagens, que permite ao leitor compreender melhor os seus próprios conflitos;
  2. do discernimento, que permite ao leitor avaliar novas perspectivas ou respostas;
  3. do alívio sentido pelo leitor, que se liberta emocionalmente ao acompanhar os desafios ultrapassados pelos personagens.
  4. Alguns investigadores apontam ainda o papel da universalização, que permite ao leitor perceber que não está só na vivência das suas provações.

A pandemia pela covid19 é uma das maiores provas suportadas pela humanidade. Este inimigo invisível, socialmente transversal e global exige de nós — por razões de saúde pública, de civismo, de solidariedade e até de sobrevivência — uma alteração profunda dos nossos estilos de vida, para a qual poucos estão preparados.

As sugestões de leitura que se seguem, feitas na óptica da biblioterapia, pretendem ajudar a suavizar os impactos da pandemia nas nossas vidas. Esta semana, as sugestões têm como objectivo tirar o melhor proveito da paragem forçada, estimular a introspecção e manter a serenidade.

Silêncio na Era do Ruído, de Erling Kagge, Quetzal Editores

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Quão irónico é um vírus invisível a olho nu estar a obrigar o mundo inteiro a parar, quando uma das nossas maiores queixas é não termos tempo?

Neste livro, Erling Kagge (aventureiro, explorador, filósofo e editor) descreve o silêncio como o grande luxo do século XXI, não só o silêncio ao nosso redor, mas o silêncio interior, aquele que permite nos ouçamos, num exercício de introspecção e de auto-avaliação em qualquer circunstância.

Um livro para fazer face ao stress, à impaciência, à tirania da eficiência, da produtividade e do crescimento constante, à futilidade, ao excesso de consumo, à desconexão de si, dos outros e da natureza, e até a uma certa pobreza espiritual. Perfeito para acompanhar esta fase de abrandamento forçado, estimula ao apaziguamento, à capacidade de estar no momento presente, à sobriedade, à resiliência, ao equilíbrio, à leveza, à alegria e, quem sabe?, ao reequacionar do rumo de vida também.

O Banco do Tempo que Passa, de Hubert Reeves, Gradiva

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O canadiano Hubert Reeves é astrofísico, professor, comunicador de ciência, ecologista e descrito como “o poeta do espaço”. Qualquer leigo entenderá o que escreve a partir do seu olhar de astrofísico, mas também a partir da sua imensa cultura. Com ele adquirimos uma nova perspectiva sobre o lugar e o papel da Humanidade na história do Universo e da Terra. 

Um livro que alia ciências exactas, literatura, ecologia, filosofia e outras áreas do conhecimento para incrementar a nossa cultura geral, alargar os nossos horizontes, abrir caminho a uma visão caleidoscópica da realidade, estimular o questionamento, o pensamento em profundidade e a humildade.

Adequado para contrariar as opiniões infundamentadas, as notícias falsas, as teorias da conspiração e o obscurantismo, que estimulam o conflito social e minam a capacidade de cooperação. Uma leitura que nos ilumina, nos imbui de empatia e compaixão, valores essenciais em tempos de pandemia.

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