CTT: Aljustrel passou “a ter pessoal competente que sabe do ofício”

Os Correios reabriram em Aljustrel. No mesmo edifício onde era frequente a contestação e o protesto dos cidadãos pelo mau serviço prestado pela gestão privada observa-se agora um ambiente de satisfação.

Foto
ricardo campos

Ano e meio depois de ter sido sub-concessionado a uma entidade privada, o posto de correios de Aljustrel reassumiu as suas funções, como serviço público, no passado dia 24 de Fevereiro. “É uma vitória de Aljustrel, das pessoas e da sua persistência, mas também uma vitória do município” congratulou-se Nelson Brito, presidente da Câmara de Aljustrel, durante a cerimónia que marcou o simbólico evento.

Inconformado com a privatização de um serviço com grande peso social, chegou a anunciar uma providência cautelar e uma acção principal contra os CTT. “São os idosos que mais se ressentem da alteração efectuada. Nalguns casos, são forçados a percorrer dezenas de quilómetros para receber as reformas e pensões” descreveu ao PÚBLICO Nelson Brito, presidente da Câmara de Aljustrel, há um ano.

Denunciou então, “uma inegável perda de qualidade de serviços, que não asseguravam, muitas vezes, patamares mínimos”. E no que ao município diz respeito, “piorou bastante”, frisando que a câmara chegava a estar “dias sem receber correio, o que é impensável no caso de uma autarquia”, observou Nelson Brito.

Com a reposição da situação anterior, o autarca já anunciou que vai desistir das acções judiciais que o município tinha em curso que visavam anular a sub-concessão dos CTT de Aljustrel a uma entidade privada.

O testemunho crítico do presidente da câmara da vila mineira é extensivo à população que necessita dos serviços prestados pelos correios. “Houve dias em que as pessoas esperavam à porta para serem atendidas, porque a pessoa que lá estava era só palear o que é que a filha ou filho deste ou daquele faziam” constata José Veras, de 78 anos, um dos “muitos opositores” à privatização da loja dos CTT, revela ele ao PÚBLICO.

Durante o tempo em que o serviço foi gerido por um entidade privada, “quem estava ao balcão não percebia nada do que estava a fazer” sublinha José Veras, frisando que aos funcionários dos CTT é requerida a garantia de que “o sigilo profissional é respeitado”.

Nas condições em que funcionava a sub-concessão, “pensa-se que uma pessoa é boa, mas também pode ser um marau”, observa o morador em Aljustrel que se apresenta como reformado dos CTT. Com a retoma do serviço público, destaca: “Passámos a ter pessoal competente que sabe do ofício” quando, na situação anterior as tarefas eram asseguradas “por pessoas sem formação e num local onde vem muita gente idosa e que sabe pouco de letras.”

“Trabalhei ali (e aponta para o edifício dos correios) 33 anos. Corri terras por todo o país. Cheguei a ir trabalhar apenas um dia para Leiria e Porto de Mós”, indo de Aljustrel. O exercício da memória prossegue como se de um filme se tratasse. E no “The End”, uma legenda que marcou a sua passagem pelos CTT: “Tive muito gosto em trabalhar lá. Tinha amor pelo que fazia.”

Os testemunhos de satisfação estendem-se a outros residentes da vila alentejana contactados pelo PÚBLICO. José Parreira vive num monte na periferia da vila de Aljustrel e precisa de um apartado na estação dos CTT para poder receber o correio. Diz que nunca teve razão de queixa dos serviços, mas reconhece que “agora as coisas parecem mais bem organizadas”.

Bárbara Cipriano tem um estabelecimento comercial próximo da estação dos CTT, a que não recorre por não necessitar, mas reconhece pelos relatos que a população lhe transmite que “é muito melhor o serviço público que o privado” do qual “temos necessidade porque temos uma população muito envelhecida, completa Patrícia Correia que tem um estabelecimento onde vende flores.

E justifica a importância do posto dos correios com todas as suas valências: “Em Aljustrel, há poucos jovens e ainda menos crianças, e o negócio (comércio) na terra vive à base de reformados”. Estes, quando se deslocam ao posto dos CTT para levantar a reforma pagam, em simultâneo, no mesmo balcão, as facturas da água e da electricidade. Neste último caso, e desde que o balcão da EDP saiu de Aljustrel, as pessoas só podiam pagar a luz em Castro Verde ou Beja.

Quando da sua recente deslocação à vila do Redondo (distrito de Évora), para oficializar a reabertura da estação dos CTT local, o presidente da comissão executiva dos CTT, João Bento, vincou que a empresa que dirige tem “consciência muito clara” de que os serviços dos Correios devem “estar mais próximo das nossas populações”.

O novo posicionamento assumido pela administração da empresa passa pela reabertura de todas as lojas únicas em sedes de concelho, como a que contemplou Aljustrel no passado dia 24 de Abril, dotando-as de condições para prestar o serviço público universal e ainda o pagamento de vales de pensões e facturas. A par desta decisão, a empresa travou o encerramento de mais lojas.

A de Aljustrel foi o quinto estabelecimento reaberto depois de Vila Flor, Alpiarça, Melgaço e Redondo, dos 33 que foram encerrados em sedes de concelho de norte a sul de Portugal ao longo dos últimos anos.

E apesar de não apresentar um calendário definido sobre a eventual reabertura das estações dos CTT de Almodôvar e Ourique, também concessionadas as terceiros, João Bento adiantou, em Aljustrel, que a empresa que dirige está a analisar “calmamente” o processo de novas reaberturas. E chegará a altura em que os dois concelhos já referidos “terão uma estação dos CTT”, garantiu aquele responsável.

No meio da insatisfação geral resultante da atribuição de sub-concessões para as explorações por privados de lojas dos CTT em 33 sedes de concelho do país, o caso de Barrancos é singular. João Serranito, presidente da câmara local, já expressou publicamente a sua satisfação pelos serviços prestados pela empresa privada que passou a assegurar o serviço de Correios na vila raiana.

“Tivemos sorte com a empresa. Para além de ter criado um posto de trabalho, a qualidade do serviço está assegurada. Voltar aos antigos Correios e ficar pior - preferimos como está, porque estamos bem servidos” ajuizou o autarca de Barrancos.

Sugerir correcção