Um mês de mochila às costas pela cordilheira dos Andes

Rafael Marques, 28 anos, e Daniela Diogo, 27,  passaram, em 2019, um mês na América Latina a percorrer grande parte da cordilheira dos Andes. Consigo levaram, cada um, uma mochila de 50 litros e toneladas de curiosidade.

A ideia da viagem estava guardada no fundo da cabeça de Rafael desde que viu Diários de Motocicleta, de Walter Salles. O filme, baseado no livro de Che Guevara, retrata a viagem do guerrilheiro argentino com o seu amigo, Alberto Granado, pela América Latina, em 1952. “Há uma frase do filme que eu até uso no meu vídeo em que ele diz que aquela viagem o mudou mais do que ele queria: 'Eu já não sou eu, pelo menos já não sou o mesmo eu interior'. Essa frase foi, sem dúvida, marcante e fez-me ter um fascínio imediato por aquela rota”, explica Rafael Marques  ao telefone com o P3.

Quando conheceu Daniela, percebeu que a sua paixão por viagens era compatível. “Não nos identificamos muito com as típicas férias de duas semanas para estar no mesmo sítio de praia ou piscina para descansar fisicamente”, explica Rafael. Os poucos dias de férias que têm são para “conhecer algo novo e enriquecer mentalmente, mesmo que seja desgastante a nível físico”, completa Daniela. Por isso, partiram de mochila às costas. Colocar tudo o que necessitavam lá dentro foi um desafio, porém concluíram que precisam de muito pouco para viver — “quanto menos se tem, menos se precisa”.

Amante de cinema e de vídeo, Rafael guardou um espaço na sua mochila para a câmera e o drone. Faz sempre vídeos para recordar as suas viagens e partilhar com a família, os amigos e o mundo, através do YouTube e Instagram, e esta aventura não foi excepção. “Tento transmitir num vídeo absolutamente normal de viagem uma visão mais pessoal e poética do assunto. Basicamente, é um relato da nossa viagem.”

Para Rafael, o ponto alto foi a Patagónia, onde, diz, a pureza da natureza ainda não foi corrompida pelo turismo em massa e os rios têm água tão pura e transparente que se podia beber sem medo de contaminação. Já Daniela gostou mais do Peru, especialmente Cusco. Lá sentiu-se bem — "senti nostalgia por algo que nunca conheci”, tenta explicar. “Todas as pessoas que nós fomos conhecendo eram muito puras, acolhedoras, tentavam-nos levar para casa delas, o pouco que tinham tentavam partilhar connosco. É uma cultura muito dada.”

Foi preciso muito “ jogo de cintura” para organizar esta viagem — conjugaram os 22 dois dias de férias a que têm direito com os feriados dos meses de Abril e Maio para conseguirem ir mais tempo. A partir do seu exemplo, querem acabar com a ideia de que viagens de “mochilão” são apenas para “aventureiros ou  jovens que estão a estudar , para os vloggers de viagem ou os que deixam de trabalhar para fazer uma viagem à volta do mundo”. Rafael é engenheiro mecânico e Daniela trabalha numa empresa de desenvolvimento de software. É possível para "pessoas normais com trabalhos normais fazerem viagens igualmente épicas e bastante aventureiras”, sublinham. A próxima será já este ano, para a Indonésia. Gostam sempre de fugir dos clichés, portanto Bali será uma paragem breve na lista.

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