Crónica

Em auto-isolamento há 24 horas por causa do coronavírus: temperatura corporal 35,7ºC

Até agora, não arrumámos mais do que o habitual, não fizemos bolos, não criámos entretenimentos fora do normal. Só se passaram 24 horas; há tempo para isso. Apenas uma novidade: esta manhã, bebi café com a vizinha.

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O comportamento de quem sai à rua, só por um bocadinho, não põe em causa a saúde do próprio, mas de todo o sistema Kinga Cichewicz/Unsplash

Querido diário,

Entrei em auto-isolamento há 24 horas, mas uma parte de mim já estava à espera que isso acontecesse há quase duas semanas (quando comecei a monitorizar a temperatura de todos em casa, à saída e à chegada, e a obrigar os miúdos a andar com sabonete na mochila da escola que, nessa altura, ainda não tinha implementado nenhuma medida).

Iniciei uma quarentena voluntária, este sábado, depois de ter ido buscar o que ainda me faltava para lidar com as duas próximas semanas sem sair de casa: uma caixa de Ben-u-ron; areia para os gatos e resguardos descartáveis para a cadela (sim — é possível); e, claro, papel higiénico que ainda não tinha encontrado (um pacote de 48 rolos como habitual e que dará para mais de um mês), além de tintas, telas e lápis de carvão para a mais velha.

Durante a meia hora que andei pela rua, assisti a comportamentos totalmente diferentes, desde o senhor do café que está descansado em relação ao vírus porque usa lixívia nas limpezas (e ficou magoado comigo por ter pedido para escaldar a chávena e ter usado um guardanapo para agarrar na dita) até ao comportamento exemplar à porta da farmácia, com as pessoas a aguardarem no exterior e distantes umas das outras. Voltei, deixei os ténis na escada — espero tê-los ainda lá — e pus a roupa que trazia para lavar.

Depressa, comecei a cruzar-me virtualmente com quem também optou pelo auto-isolamento. Há quem teça relatos quase de guerra com muito humor, mas também quem relate a situação como insuportável e sem qualquer graça. Pior: há quem, desde o momento que decidiu o auto-isolamento, já tenha saído para comprar pão, para beber café, para levar o cão à rua ou até para dar um passeio em algum sítio ermo para desanuviar o estado de espírito. Tal e qual os italianos fizeram quando se optou por fechar as escolas, a 23 de Fevereiro, altura em que contabilizavam pouco mais de 150 casos e três óbitos — hoje, três semanas depois, lidam com quase 25 mil casos e mais de 1800 mortos.

Questiono-me se saberão o que significa exactamente auto-isolamento e, mais, como aguentarão um mês quando ao fim de umas horas já se estão a passar.

O comportamento de quem sai à rua, só por um bocadinho, não põe em causa a saúde do próprio. Põe em causa todo o sistema e poderá esticar este tempo de semiquarentena para lá do estimado.

Enquanto isso, os dois miúdos agradecem por não terem de pôr os pés na rua, que o que eles gostam mesmo, mesmo, é de estar em casa. Prefeririam se tivessem os jogos da Wii — mas eu, ditadora das tecnologias, não me consigo lembrar onde os pus. Não jogaram, mas arrumaram a gaveta dos filmes e dos jogos.

A miúda passou o dia em videoconferência a fazer trabalhos da escola até um e-mail de uma professora ter sido mal compreendido, criando a ideia de que os trabalhos não contariam para nota, o que provocou uma cena revolucionária de pôr o Salgueiro Maia e co. no bolso (e me testou os limites da paciência).

Já eu, habitualmente nada hipocondríaca, descobri um alto no pescoço, muito provavelmente de estar sentada à frente ao computador durante horas, mas que me fez imediatamente viajar nos pensamentos. Deve ser aquela coisa dos sintomas psicossomáticos… Entretanto, o alto desapareceu.

Até agora, não arrumámos mais do que o habitual (além daquela gaveta); não fizemos bolos; não criámos entretenimentos fora do normal. Só se passaram 24 horas; há tempo para isso. Apenas uma novidade: esta manhã, bebi café com a vizinha. Cada qual na sua varanda, a mais de seis metros de distância.