Está completo o mapa de uma Ocean Race sem Portugal à vista

Edição de 2021-22 volta a ter em Newport um ponto de paragem, ao contrário do que acontecerá com Lisboa. A ligação lusófona será assegurada pela Mirpuri Racing Team e pelo stopover de Cabo Verde.

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Thomas Johansson/Reuters

As peças foram sendo encaixadas ao longo dos últimos meses e o puzzle ficou completo com a confirmação de que Newport, nos Estados Unidos, continuará a ser uma das cidades que acolherá a mais longa (e difícil) prova de circum-navegação de vela por equipas. Com novas paragens (stopovers) e uma segunda classe de barcos (os velozes IMOCA 60 juntam-se aos VOR65), a The Ocean Race 2021-22 manterá uma ligação forte a Portugal, que voltará a contar com um barco de bandeira portuguesa na regata: o Mirpuri Foundation Racing Team, que será um dos favoritos à vitória. No entanto, após três edições em que Lisboa foi uma das paragens da competição, a rota da 14.ª edição da competição, que terá o seu início em Outubro de 2021 em Alicante, não passará por território nacional

A edição 2017-18 da Volvo Ocean Race — a partir da próxima edição, o construtor sueco mantém ligação à regata, mas deixa de estar associado ao nome da prova — deixou a fasquia elevada para as provas seguintes. Para além de ter sido a mais competitiva de sempre — após percorrerem cerca de 80 mil quilómetros, Team Brunel, MAPFRE e Dongfeng partiram para os últimos 1300 quilómetros entre Gotemburgo e Haia com hipóteses de vencerem —, esta corrida de circum-navegação estabeleceu recordes em várias vertentes: mais de 2,5 milhões de pessoas visitaram os stopovers; a audiência televisiva acumulada foi de 2,2 mil milhões de telespectadores; houve mais de 3300 horas de transmissão televisiva, que geraram 429 milhões de euros em publicidade.

Estes números não conseguiram, no entanto, seduzir o Governo, a Câmara Municipal de Lisboa e o Porto de Lisboa. Apesar de ter sido firmado um compromisso entre os responsáveis da The Ocean Race e as entidades nacionais — o desenho inicial da prova foi pensado com Lisboa no mapa —, a decisão final dos organismos portugueses foi de abdicar do stopover (esteve em cima da mesa a possibilidade de a última regata terminar em Lisboa) e do estaleiro (boatyard). Segundo o PÚBLICO apurou junto de um dos responsáveis pela organização da Volvo Ocean Race 2017-18, o stopover e o boatyard (os contentores da prova continuam em Lisboa) geravam na capital portuguesa “metade do número de dormidas que a Web Summit normalmente gera em Lisboa, com um valor de investimento cinco ou seis vezes menor”. “Houve um concurso público para a revitalização da Doca de Pedrouços, que não deu em nada e está tudo parado. Penso que para qualquer promotor internacional, ter agarrado a esse concurso um evento da dimensão da The Ocean Race era fantástico”, revelou a mesma fonte.

Apesar da saída de Portugal da rota, a lusofonia continuará a ter uma presença significativa na The Ocean Race 2021-22. Pela quarta vez consecutiva, Itajaí receberá o final da mais longa e temida etapa: 7.600 milhas náuticas (cerca de 14.000 km) entre Auckland, na ilha norte da Nova Zelândia, e o Brasil, através dos turbulentos mares do Pacífico Sul, numa etapa que passará pelo Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul, conhecido como o “fim do mundo”. 

Esta ligação ficou tragicamente marcada na última edição pela morte do velejador John Fisher, colega de equipa de António Fontes na Scallywag. O inglês participava pela primeira vez na competição e caiu ao mar numa localização remota do Pacífico, quando as condições meteorológicas eram adversas: vento de 35 nós (mais de 60km/h) e ondas de seis metros.

A novidade lusófona será, no entanto, Cabo Verde, que passará a ser o segundo país africano a receber a competição, depois da África do Sul (Cidade do Cabo): o Porto do Mindelo, na ilha de São Vicente, vai acolher os IMOCA 60 e os VOR65 no final da primeira etapa.

Para além de Alicante, Itajaí, Auckland, Newport e do Mindelo, a The Ocean Race 2021-22 repetirá ainda dois stopovers da edição 2017-18 (Cidade do Cabo, na África do Sul, e Haia, na Holanda) e terá quatro novidades. Shenzhen, na China, será a única paragem em solo asiático, enquanto no território europeu haverá mais palcos: Aarhus, o primeiro stopover dinamarquês, e Génova, em Itália, que receberá o “grand finale”, em Junho de 2022.