Governo olha para a TAP “com muita preocupação”

Crescem as vozes que pedem intervenções estatais no sector, desde a Lufthansa e KLM até às companhias norte-americanas.

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Estado detém 50% do capital da TAP Rui Gaudencio

No meio do turbilhão provocado pelo novo coronavírus no sector da aviação, há cada vez mais vozes a defenderem intervenções para proteger empresas como a TAP e as suas congéneres. “A pressão está a aumentar juntos dos governos para tomarem rapidamente acções de apoio” às companhias aéreas, sintetizou à Reuters um analista do sector, Daniel Roeska.

Questionado pelo PÚBLICO sobre se o Governo está preparado para injectar capital na TAP, se e quando for necessário, o Ministério das Infra-estruturas de Pedro Nuno Santos respondeu, através de fonte oficial, que está “a acompanhar a situação com muita preocupação”.

Esta sexta-feira, e após a forte queda provocada pelo anúncio dos EUA de que não iriam aceitar durante 30 dias passageiros que tivessem estado no espaço Schengen nos últimos 14 dias (à excepção dos norte-americanos), os sinais de intervenção estatais, mais ou menos directos, avolumaram-se dos dois lados do Atlântico.

O bloqueio de Donald Trump atingiu em cheio a transportadora aérea portuguesa, que está a operar 49 voos de ligação aos EUA por semana, mercado onde tem vindo a fazer uma forte aposta (é o terceiro maior mercado, após o Brasil, e responsável por cinco das sete rotas mais rentáveis).

Na quarta-feira, ainda antes do anúncio de Trump, o presidente executivo da TAP, Antonoaldo Neves, já falava em nuvens escuras no horizonte numa conferência telefónica com analistas. Sobre as dificuldades causadas pelo surto, e já perante a possibilidade de se verificar uma facilitação das ajudas estatais na UE, o gestor considerou que, a avançarem, a TAP estará entre as visadas devido à sua importância para o país.

Por outro lado, defendeu essa questão teria mesmo de ser garantida no espaço europeu se houvesse apoios ao sector nos EUA - de modo a evitar distorções concorrenciais.

Antonoaldo Neves afirmou, no entanto, que já sabia que podia com o apoio dos accionistas, ou seja, do consórcio privado Atlantic Gateway (dono de 45% do capital, detido por David Neeleman, a Azul, e por Humberto Pedrosa) e do Estado português (50%). Com o anúncio de Trump, a turbulência subiu a pique, tal como a pressão sobre as contas da TAP e de outras companhias. Até agora, a empresa portuguesa ainda não cancelou ainda nenhum voo para os EUA, mas deverá ser apenas uma questão de tempo. A actual conjuntura surge após dois anos com prejuízos acima dos 100 milhões de euros mas com sinais de inversão dos resultados.

Apoios à vista

A alemã Lufthansa, de acordo com a Reuters, já afirmou que precisa de apoio governamental - numa altura em que tem dois terços da frota no chão, e o primeiro-ministro holandês avançou que está a analisar medidas para apoiar a KLM (subsidiária do grupo Air France-KLM) e o aeroporto de Schiphol, pela sua “importância para a sociedade holandesa”.

No Reino Unido, o presidente da British Airways (que faz parte da IAG, ao lado da Iberia) falou esta sexta-feira numa luta “pela sobrevivência” da companhia e, segundo a Reuters, enviou uma mensagem aos trabalhadores onde prevê que o impacto do novo coronavírus seja pior do que provocado pelo 11 de Setembro, pelo surto do SARS e pela crise financeira de 2008. Nos EUA, a Delta, a United e a American Airlines estão em conversações com o executivo de Trump para ver como podem receber ajuda.

Ajudas compatíveis

Em Bruxelas, a Comissão Europeia sinalizou a propósito do vírus que, em termos de regras da concorrência, as ajudas concedidas pelos Estados são compatíveis com o mercado interno quando esses auxílios se destinam “a remediar os danos causados por calamidades naturais ou por outros acontecimentos extraordinários”, conforme está escrito no Tratado de Funcionamento da União Europeia, o que inclui, destaca-se, sectores “como a aviação e o turismo”.

Pelo meio, a associação da aviação a nível mundial, a IATA, defendeu esta sexta-feira que “o colapso na procura não tem precedentes”. Através do seu vice-presidente para a Europa, Rafael Schvartzman, a IATA congratulou-se com a entrada em vigor da suspensão da regra do uso das faixas horárias (conhecidas por slots, em inglês), que dá flexibilidade ao sector pelo menos até Junho, mas considerou “os governos têm de considerar outras formas de alívio de emergência”.

Um indicador mostra bem o que está a acontecer ao sector: as acções das companhias aéreas, reunidas no índice STOXX Europe Total Market Airlines, caíram 43% desde o início do ano.

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