Coronavírus: reclusas de Hong Kong produzem dois milhões e meio de máscaras por 90 euros mensais

As mulheres encarceradas na prisão de Lo Wu queixam-se de um caso de “exploração”. Nova Iorque também quer pôr reclusos a produzir gel desinfectante para responder à elevada procura. Críticos apontam para situação “irónica” dadas as condições de higiene “desumanas” nas prisões.

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Reuters/ANDREW KELLY

propagação do novo coronavírus tem vindo a motivar um aumento exponencial na procura de desinfectante para as mãos e de máscaras protectoras – apesar de as autoridades de saúde insistirem que apenas as pessoas infectadas e os seus cuidadores devem utilizar estas últimas. Numa prisão em Hong Kong, face a um esvaziamento das prateleiras nas farmácias, reclusas começaram a queixar-se de serem “exploradas” para que produzam mais de dois milhões de máscaras por mês.

Depois de visitar o estabelecimento prisional de Lo Wu, na região Norte desse país, o assistente social e activista Shiu Ka-chun disse que este é um caso de “escravatura moderna”. Muitas das prisioneiras que fabricam as máscaras protectoras trabalham de noite. Fazem turnos que podem durar seis horas, no mínimo, e dez, no máximo. Por norma, ganham pouco mais de 90 euros mensais – um valor que, aponta o The Guardian, está “significativamente abaixo” do salário mínimo em Hong Kong.

À Reuters, esta terça-feira, 10 de Março, as autoridades prisionais não negaram que os reclusos estão a trabalhar ou a receber estes valores, mas, ao mesmo tempo, distanciaram-se das acusações de exploração. Uma porta-voz dos Serviços Prisionais de Hong Kong esclareceu à agência noticiosa britânica que todas as pessoas que têm feito o turno da noite “estão a fazê-lo de forma voluntária”, acrescentando que estas podem “abordar a administração a qualquer altura” se sentirem que preferem ser colocadas noutros horários. Segundo a mesma fonte, são 100 as mulheres que, seis dias por semana, fazem máscaras protectoras e gel desinfectante dentro da penitenciária.

Estas reclusas não são as únicas que têm sido chamadas a trabalhar. O governo de Hong Kong explica que mais de mil guardas prisionais reformados (ou, nas horas livres, aqueles que estão fora de serviço) têm contribuído para a produção de máscaras. Dentro das paredes da prisão de Taipei, em Taiwan, também há quem tente fazer frente ao surto de covid-19 – mas aqui, sugere a France-Presse (AFP), há uma alegria que não existe em Lo Wu.

“Quando a minha família me veio visitar, disseram-me que estava a tornar-se muito difícil conseguirem comprar máscaras lá fora. Eu disse-lhes: ‘O pai está a fazer máscaras aqui dentro. Se calhar vão conseguir usá-las.’ Sempre que as coso, penso que podem trazer segurança.” O relato é de Yuh, que, aos 50 anos, já cumpriu 10 dos 23 que lhe foram sentenciados por posse de droga e armas, e que, ao lado de outros reclusos naquele estabelecimento prisional, voluntariamente passa horas dentro da sala de máquinas para “dar um contributo para a sociedade”.

A AFP sublinha que é prática comum os reclusos nas prisões de Taiwan realizarem trabalho interno. Por norma, fabricam peças de vestuário ou sabão. Agora, as máscaras desviaram as atenções de tudo o resto. Em Taipei, desde Fevereiro, já foram cosidas cerca de 50 mil. Lá fora, são vendidas por 75 cêntimos. Os presos recebem uma pequena percentagem desse dinheiro, que pode ser gasto dentro da própria penitenciária.

Mas há quem duvide da eficiência desta estratégia. Esta segunda-feira, Andrew Cuomo, governador de Nova Iorqueanunciou a intenção de, através da mão-de-obra dos reclusos na cidade, assegurar a produção de cerca de 380 mil litros de gel desinfectante. Uma medida que não fugiu às críticas: Ayanna Pressley, do estado de Massachusetts, disse que era “irónico” pessoas em estado de encarceramento produzirem material para a saúde quando são sujeitas a condições de higiene “desumanas”. Na semana passada, a União Americana pelas Liberdades Civis já tinha expressado preocupações similares, apontando que “as condições dos estabelecimentos prisionais fazem com que doenças contagiosas consigam proliferar com facilidade” e frisando que seria muito fácil “um vírus entrar numa prisão, circular para fora e espalhar-se pela comunidade”.