Presidente da TAP fala em “nuvens escuras” no horizonte por causa do coronavírus

Antonoaldo Neves diz que, a existirem apoios estatais europeus, a TAP deverá ser contemplada, mas que “se for necessário” também terá o apoio dos accionistas: Estado e a Atlantic Gateway de David Neeleman e Humberto Pedrosa.

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Antonoaldo Neves, presidente executivo da TAP Rui Gaudencio

Para o presidente executivo da TAP, Antonoaldo Neves, ainda é cedo para perceber os impactos do novo coronavírus, mas é fundamental a empresa ter a flexibilidade necessária para responder à situação, que, afirmou, “exige acção”. “Não vamos hesitar”, afirmou o responsável pela gestão da transportadora numa conferência telefónica com analistas sobre os resultados da companhia em 2019, acrescentando que a sua equipa está a trabalhar de forma intensa e a acompanhar diariamente a situação.

“Temos nuvens escuras à nossa frente”, ilustrou o gestor, uma imagem que se pode alargar a toda a indústria. Sobre as dificuldades causadas pelo surto, e perante a possibilidade de haver uma flexibilização das ajudas estatais na União Europeia, Antonoaldo Neves considerou que, a avançarem, a TAP estará entre as visadas devido à sua importância para o país, e que essa questão terá mesmo de ser garantida no espaço europeu se houver apoios do Governo nos EUA (para que não haja distorções competitivas).

De qualquer forma, o gestor mostrou-se “confiante” e afirmou que já sabe que conta com o apoio dos accionistas, ou seja, do consórcio privado Atlantic Gateway (dono de 45% do capital) e do Estado português (50%). Isto, ressalvou, “se for necessário” e numa base de condições idênticas às do mercado (de modo a garantir que não há práticas tidas por anticoncorrenciais). Mesmo que o surto seja curto, o gestor considerou perante os analistas que o impacto económico está para durar, e que não antecipa uma recuperação rápida, mas sim moderada.

Até ao momento, ao nível dos cortes, a empresa já anunciou que vai suspender cerca de 3500 voos, com um ajuste da oferta de 7% em Março, 11% em Abril e 19% em Maio, com principal enfoque nos mercados de Itália (para onde já não voa, por decreto do Governo), Espanha e França, mas abrangendo também voos intercontinentais (a TAP tem ligações para vários países africanos, África, Brasil, EUA e Canadá). Em paralelo, a empresa anunciou a suspensão ou adiamento de “investimentos não críticos” e do “corte de despesas acessórias”.

Na lista de poupanças está ainda a renegociação de contratos e prazos de pagamento, antecipação de crédito junto de fornecedores, suspensão de contratações de novos trabalhadores, a suspensão de progressões e formações e também a o recurso a licenças sem vencimento.

Em relação a este último aspecto, os funcionários podem avançar com um pedido de licença com duração de 30 a 90 dias, referentes a Abril, Maio e Junho. Desconhece-se ainda o grau das primeiras adesões, bem como o destino dos trabalhadores que estejam neste momento com contrato a termo.

Na actual conjuntura, não é de excluir novas medidas de contenção de custos por parte da TAP (numa primeira fase a suspensão abrangia apenas cerca de 1000 voos), tal como tem acontecido no resto do sector. Esta quarta-feira, por exemplo, o grupo Lufthansa anunciou a suspensão de 23.000 voos para o período de 29 de Março a 24 de Abril, avisando ainda que se esperam “mais cancelamentos nas próximas semanas”. Sobre os ajustamentos a fazer após o dia 24 de Abril, o grupo alemão diz que serão comunicados mais tarde.

A TAP, tal como outras companhias áreas, está já a contar com o apoio prometido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que anunciou esta terça-feira a revisão temporária da legislação relativa às faixas horárias dos aeroportos (conhecidas como slots, em inglês). Isto para que as empresas possam manter as autorizações de aterragem e descolagem em infra-estruturas com maior congestionamento, mesmo sem as usarem (ou mantendo-as com os chamados “voos fantasmas”, efectuados apenas para manter as slots).

Esta quarta-feira, o grupo divulgou o relatório e contas da transportadora aérea, que teve um prejuízo de 95,6 milhões de euros (valor que sobe para 105,6 milhões ao nível do grupo). O documento dá conta, entre vários outros aspectos, da descida do endividamento bancário e da existência de 17 milhões de euros em contingências, (contra 405 mil euros de 2018), das quais 9,3 milhões dizem respeito, quase na totalidade, a processos instaurados por clientes “relativamente às irregularidades da actividade” - entendendo-se irregularidades como atrasos e cancelamentos.

O relatório inclui já referências ao novo coronavírus, com a administração a salientar que “as medidas implementadas para protecção da posição financeira da TAP foram determinadas tendo por base a melhor informação disponível” à data, salientando ao mesmo tempo a existência de “um contexto de incerteza associado à evolução futura da disseminação” do vírus.