Organização Mundial de Saúde considera que ameaça de pandemia por coronavírus “se tornou muito real”

“Quando se chega a 100 países e a 100 mil casos, é tempo de dar um passo atrás e pensar. Há duas semanas eram 30 países”, afirmou Mike Ryan da OMS. Apesar da cautela, a OMS parece cada vez mais próxima de se referir a este surto como uma pandemia.

Tedros Adhanom Ghebreyesus
Foto
Tedros Adhanom Ghebreyesus LUSA/SALVATORE DI NOLFI

O novo coronavírus já chegou a vários países na Ásia, Europa, Médio Oriente e Américas e “agora que o vírus tem presença em tantos países, a ameaça de uma pandemia tornou-se muito real”, disse o director-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa na sede da organização em Genebra na segunda-feira. “Mas não seria a primeira pandemia na história a ser controlada. Não estamos à mercê do vírus.”

O termo aplica-se de acordo com a situação de disseminação global de uma doença, a sua gravidade ou os seus efeitos na sociedade, algo que pode vir a verificar-se com a covid-19. Contudo, a pujança do vírus ainda pode ser mitigada se os governos locais dos países afectados agirem rápido, defende Tedros Ghebreyesus citado pela Reuters. É preciso um cocktail de medidas de contenção e acções de mitigação — e ainda não está na altura de os governos nacionais desistirem: “Quer se trate de uma pandemia ou não, a regra é a mesma: não desistam.”

“Estamos encorajados porque Itália está a tomar medidas agressivas para conter a epidemia e esperamos que essas medidas provem a sua eficiência nos próximos dias”, disse Tedros Ghebreyesus. Todo o território italiano foi posto nesta segunda-feira em quarentena, com restrições que impedem deslocações de cidadãos e cancelamento de eventos públicos. A medida entra em vigor esta terça-feira.

A conferência de imprensa da OMS trouxe outras boas notícias: dos 80 mil casos confirmados na China, 70% já recuperaram. Naquele país, “a epidemia está a ficar sob controlo”, defende o director-geral da OMS. De acordo com a Comissão de Saúde chinesa, nesta segunda-feira não foi registado nenhum caso de infecção local na China fora da província de Hubei, epicentro do surto. É o terceiro dia consecutivo que isso acontece. 

93% dos casos aconteceram em quatro países

Mas há cautela nas palavras da organização, que hesita em chamar pandemia a este surto — apesar de parecer cada vez mais próximo de fazê-lo. “Quando se chega a 100 países e a 100 mil casos, é tempo de dar um passo atrás e pensar. Há duas semanas eram 30 países”, afirmou Mike Ryan, director executivo do programa de emergências da OMS, que falou na mesma conferência de imprensa.

O vírus está a abrandar na China, mas no resto do mundo o número de casos está a aumentar rapidamente. A Coreia do Sul tem o maior número de casos fora da China, com 7500 infecções, mas já dá mostras de um declínio em novos casos. Depois da Coreia do Sul surge Itália, e o Irão, com mais de 7000 casos na manhã de segunda-feira.

Estes quatro países concentram 93% dos casos a nível global. Dos países onde se verificaram casos positivos, apenas um punhado mostrou “sinais de transmissão comunitária sustentada”. Mike Ryan considera que a doença “ainda não seguiu o seu curso” natural na maioria dos países. “Ainda estamos muito no início desta epidemia, ainda há muito por percorrer”, defende.

O mesmo especialista defendeu, ao longo da conferência de imprensa que “se isto fosse influenza [gripe comum] teríamos chamado a isto uma pandemia há muito tempo”. Mas acrescentou que “estamos a chegar a esse ponto”. “Ao contrário da gripe, ainda podemos conter” a covid-19, acrescentou. “Por isso a palavra [pandemia] não é um problema para nós. O problema é a reacção à palavra”, acrescentou Mike Ryan. 

Conter a possível pandemia depende da rapidez dos líderes de cada país: “Está nas vossas mãos… Em vários países vai piorar antes de melhorar”, considera Maria Van Kerkhove, a líder técnica do programa de emergências da OMS. “É mais do que esperança. Há evidências que mostram o que pode ser feito.”

Sobre a doença, há novas informações. Sabe-se agora que 80% das pessoas que ficarem infectadas com covid-19 vão ter apenas sintomas moderados, semelhantes aos da pneumonia — o que quer dizer que apenas 20% desenvolvem sintomas graves.

E os mais novos não estão completamente a salvo: “A mortandade deste surto é elevada. Não devíamos categorizar por velho ou novo. Claro que percebemos a epidemiologia, é normal fazer isso, mas para agir. Acho que todas as vidas valem a pena”, disse Tedros Ghebreyesus.

Em todo o mundo há quase 110 mil casos confirmados e o risco é considerado “muito elevado” pela OMS. Em Portugal, para já há 39 casos de infecção confirmados, mas nenhum deles é considerado grave.

Na segunda-feira foi apresentado o Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo coronavírus (covid-19) que prevê que as autoridades portuguesas de saúde possam ordenar o “isolamento coercivo" de casos suspeitos e confirmados de infecção em “situações extremas”, se o doente se recusar. 

Sugerir correcção