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Salaam, o jogo criado por um refugiado para mostrar como é viver como um

Lual Mayen viveu durante 22 anos num campo de refugiados, no Norte do Uganda, e decidiu transformar a sua vida num jogo, onde o objectivo é sobreviver e criar a paz. Mas a partir de onde também é possível fazer doações a refugiados.

A vida de Lual Mayen dava um filme. Ainda que agora se sente num escritório em Washington D.C., nos Estados Unidos, nem sempre foi assim: pouco tempo depois de nascer, deixou, amparado nos braços dos pais, o Sudão do Sul. O destino: um campo de refugiados no Norte do Uganda. Pelo caminho, perdeu duas irmãs e viu o seu núcleo familiar ficar reduzido a cinco pessoas. No campo, onde esteve 22 anos, experienciou fome, guerra e miséria. Mas foi também lá que decidiu tornar a sua vida não num filme, mas num jogo.

“Se passas por alguma coisa difícil e sobrevives, a questão seguinte é: como emerges disso? Como usas essa oportunidade para tornar a tua vida melhor?”, referiu o jovem, agora com 25 anos, ao The Washington Post. No seu caso, decidiu usar o cenário de guerra para criar a paz e fez nascer a primeira versão do Salaam, um jogo que recria a vida de um refugiado — quando ele próprio ainda era um.

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Lual sempre gostou de entreter pessoas. No campo de refugiados, fazia espectáculos de fantoches para o resto dos residentes. Cortava caixas, colava papel branco, arranjava uma luz: nascia um palco. “Mais de 100 pessoas vinham sentar-se para o ver. Era como se fosse a hora de ver televisão”, conta Nyantet Daruka, a mãe de Lual, citada no mesmo texto.

Foi aos 12 anos que Lual viu pela primeira vez, no centro de registos do campo, um computador. Implorou à mãe por um. E se, no início, a reacção foi apenas uma gargalhada, Daruka acabou por repensar: o espectáculo que Lual fazia com os fantoches era “um sinal de que qualquer que fosse o investimento” que fizesse no filho, ele iria dar provas de o merecer.

Passou três anos a costurar roupa para juntar 300 dólares, o preço do computador. Mas quando finalmente o recebeu, Lual começou a questionar-se: “Não havia energia para o carregar. Ninguém para me ensinar. Iria apenas mantê-lo no meu quarto, como se estivesse num museu?” Repensou: se a mãe tinha sido capaz de fazer o esforço para lhe conseguir oferecer o presente, também ele deveria esforçar-se para tirar o maior proveito que conseguisse.

Passou a fazer uma caminhada diária de três horas para encontrar um local com Internet e energia para carregar o computador. Tornou-se auto-didacta: aprendeu inglês, design gráfico e, com a ajuda de tutoriais, programação. Era 2016 quando fez nascer a primeira versão do Salaam, a palavra árabe para “paz”. O jogo para o telemóvel desafiava os utilizadores a destruírem as bombas que caíam do céu com uma nuvem de paz.

A partilha do jogo no Facebook fez com que Lual se tornasse conhecido entre a comunidade de gamers. Em 2017, recebeu um convite para ser consultor do World Bank — e com a proposta veio também um visto para viver nos Estados Unidos, onde até hoje se mantém, agora a criar a sua própria empresa, a Janub Games.

Com a criação da empresa, estás prestes a nascer também a nova versão de Salaam, na qual, à semelhança da primeira, os jogadores são refugiados que tentam fugir de bombas, mas também encontrar água e ganhar energia, para garantir que a personagem sobrevive. Se ficar sem energia, são apresentadas duas opções ao jogador: iniciar um novo jogo ou comprar comida, água e medicamentos.

E aqui entra a grande novidade: a comida, água ou medicamentos são comprados com dinheiro real, que reverte a favor de organizações não-governamentais parceiras da Junub Games. Ou seja, o que o jogador está a dar à personagem do jogo, está também a oferecer a pessoas que vivem em campos de refugiados.

A nova versão de Salaam deverá ser lançada no Verão de 2020. O jogo vai ser gratuito e qualquer pessoa que tenha Facebook pode aceder a ele. Mas, para concluir totalmente o jogo, a Junub Games está à procura de colaboradores. A partir do site, pode ser feita uma candidatura.

“Nunca imaginei que ele se fosse tornar em quem é hoje”, afirma Daruka, agora a viver no Canadá e perante a realidade cada vez mais próxima de ver o sonho do filho concretizado. “Eu só estava a ser uma mãe para ele. Só estava a trabalhar por ele. Porque a vida muda. Às vezes, a vida muda.”

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