Coronavírus: grande exposição de Rafael, Coliseu de Roma e Pompeia fechados, South by Southwest cancelado

Os efeitos do surto começam a afectar drasticamente a actividade cultural em Itália. Dos EUA e da Ásia também chegam notícias de cancelamentos e mudanças de hábitos.

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A exposição dedicada a Rafael no Palácio do Quirinale encerrou até Abril REMO CASILLI/Reuters

Gradualmente, o surto de coronavírus está a afectar cada vez mais eventos culturais e a fazer baixas de peso. No fim-de-semana, o festival South By Southwest, que se realiza em Austin, no Texas, anunciou o cancelamento da sua edição deste ano; já esta segunda-feira, a ambiciosa exposição que o Palácio do Quirinal, em Roma, dedica ao mestre do Renascimento Rafael Sanzio foi suspensa – meros três dias após ter aberto as suas portas.

O motivo do encerramento da mostra que assinala o 500.º aniversário da morte do mestre nascido em Urbino é o mesmo que levou ao fechar das portas de todos os museus italianos, numa altura em que parte do país está em isolamento. Devido ao surto de coronavírus, o Governo decidiu que até 3 de Abril os museus não abrirão ao público, num esforço para diminuir os locais de ajuntamento e em que não se consiga garantir uma distância de segurança entre as pessoas. 

O decreto assinado na noite de sábado suspende “manifestações, eventos e espectáculos de qualquer natureza, inclusive cinematográficos e teatrais”, e impede a “abertura dos museus e de outras instituições e locais de cultura”. A exposição dedicada a Rafael é um dos acontecimentos mais mediáticos que assim se viram suspensos, e também dos mais populares — antes da sua inauguração, na passada quinta-feira, tinham já sido comprados 70 mil bilhetes para esta mostra que até 2 de Junho reunirá mais de 200 obras, entre as quais alguns dos trabalhos mais importantes de Rafael Sanzio, vindos de instituições como a Galeria dos Uffizi, em Florença, ou o Museu do Prado, em Madrid.

O Palácio do Quirinal promete contactar a partir desta segunda-feira os detentores de bilhetes pré-comprados, não avançando mais detalhes sobre uma possível extensão das datas, após um eventual levantamento da ordem governamental. “Estou certo de que nunca mais veremos uma tal concentração de obras de Rafael juntas num mesmo local”, dizia antes da inauguração o director dos Uffizi.

Itália é o segundo país do mundo com mais casos do novo coronavírus a seguir à China, com mais de 7000 casos e 366 mortes causadas pela doença. Entre as instituições culturais afectadas pelo surto estão os Museus do Vaticano, que apesar de tutelados por um Estado soberano autónomo seguiram as indicações do Governo de Roma, e os muito visitados sítios arqueológicos do país – Pompeia, perto de Nápoles, o Coliseu de Roma ou o Fórum Romano. Todos estarão fechados até 3 de Abril, pelo menos.

Na semana passada, também o Museu do Louvre, em Paris, esteve encerrado dois dias para discutir medidas de segurança para os trabalhadores – o New York Times detalhava na sexta-feira que os vigilantes não terão de patrulhar a sala onde está a Mona Lisa, uma das mais concorridas e apertadas da instituição.

Entretanto, no resto do mundo

Na sexta-feira, o festival norte-americano South By Southwest, que além de muitos concertos agrega eventos em torno do cinema, da televisão e da tecnologia anualmente, foi também cancelado. A organização deste evento já com 33 anos, e que nesta edição arrancaria no dia 13,  garantiu não se tratar de “uma decisão de pânico”, nas palavras da responsável pelo condado Travis Sarah Eckhardt.

Embora não haja casos de infecção em Austin e os EUA contem com apenas cerca de 480 infectados no seu vasto território, várias grandes empresas já se tinham retirado do alinhamento e começado a esvaziar o evento – como a Apple, o Facebook ou a Netflix. O South By Soutwest tem agregado uma média de 400 mil pessoas por ano.

“Este ia ser um dos Verões mais recheados de sempre em termos de festivais e concertos de estádio, por isso qualquer disrupção vai ter impacto”, dizia há dias ao Los Angeles Times Dave Brooks, director da área de concertos e digressões da Billboard, referindo-se ao mercado americano. Outros grandes festivais, como Coachella, continuam no cartaz da Primavera/Verão.

Nos últimos dias, marcados também pelo adiamento da estreia mundial do 25.º filme da série James Bond, Sem Tempo Para Morrer, que poderá fazer o seu estúdio perder cerca de 44 milhões de euros, a indústria do cinema mundial fez as contas ao que pode perder na sequência do fecho de milhares de salas entre China, Itália e Coreia do Sul – os países mais afectados pelo coronavírus –, mas também com a pirataria e a suspensão de filmagens; a cifra ascende aos 4,5 mil milhões de euros.

A Ásia continua a ser o epicentro da vaga de cancelamentos e adiamentos no sector cultural. Digressões de bandas ocidentais como Green Day, Slipknot ou New Order já não passarão pelos países em causa e os grupos da K-pop, por exemplo, foram inevitavelmente afectados pela quarentena obrigatória a cidadãos sul-coreanos imposta pelo Japão, onde têm os seus principais públicos (BTS, Seventeen e Twice cancelaram concertos). Também a cantora Taeyon anulou a sua actuação em Singapura.

Em Itália, e mesmo antes do decreto de sábado, o país já começara a assistir ao cancelamento de concertos por bandas como os Testament e cantores como Louis Tomlinson (ex-One Direction).

Mesmo sem medidas drásticas, os hábitos estão a mudar nos espaços culturais mundo fora, à semelhança do que sucede no Louvre. O New York Times descreve o uso de luvas, desinfectantes para as mãos e novas rotinas de limpeza de superfícies como puxadores ou corrimões, além de políticas de portas permanentemente abertas para evitar toques ou pedidos para que quem tussa ou exiba sinais de gripe seja convidado a sair.

Entre os acontecimentos culturais de peso que o coronavírus já obrigou a cancelar contam-se a Feira do Livro de Leipzig, a Feira do Livro de Londres ou o Salão do Livro de Paris, bem como a edição de Hong Kong da feira Art Basel. Já em França, o mercado audiovisual MIPTV deste ano foi cancelado e o festival CannesSeries foi adiado para Outubro (mas o Festival de Cannes mantém-se agendado para 11 de Maio); em Itália, a Bienal de Arquitectura de Veneza, cuja abertura estava prevista para Maio, passou para Agosto.

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