Não foi milagre, mas começou a correr vinho nas torneiras de uma vila italiana

“Numa altura em que temos muito pouco para sorrir, fico feliz por termos trazido alguma alegria às pessoas”, disse a vice-presidente de Castelvetro di Modena, localizada numa das regiões de quarentena pelo coronavírus. “Espero que um dia mais tarde todos vocês se voltem a lembrar de nós e nos venham visitar”.

Vinho
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Imagens partilhadas nas redes e pela autarquia do "milagre do vinho"

A Lombardia foi “fechada” e mais onze províncias foram declaradas “zona vermelha”. É uma Itália a tomar medidas radicais por causa do surto de novo coronavírus, uma Itália sem motivos para rir. Mas, nestas horas de aflição, uma notícia conseguiu fazer sorrir o país como se fosse um milagre, que não sendo o do vinho, foi o da alegria, até porque não houve danos de maior, apenas algumas horas de total espanto em Castelvetro​: por uma avaria técnica nos sistemas de uma adega, o vinho pronto a engarrafar entrou para as canalizações públicas e eis que começou a correr Lambrusco das torneiras de várias casas. 

O “milagre do vinho”, como lhe chamam os jornais italianos, ocorreu na quarta-feira e desde então tem corrido o país e o mundo, como se toda a gente estivesse a precisar de um “milagre” assim, especialmente a Itália. Segundo adianta o jornal local Gazzetta di Modena, foram cerca de mil litros vindos da empresa Cantina. “O sonho de uma vida, pelo menos para quem não é abstémio”, lê-se no jornal.  ​

“Devido a uma falha na válvula do circuito de lavagem da linha de engarrafamento, o Lambrusco Grasparossa”, especialidade da região, foi parar a “algumas torneiras no bairro de Settecani esta manhã”, informou no Facebook a empresa responsável, a Cantina Settecani. “O problema foi prontamente resolvido. O acidente não envolveu riscos de higiene ou saúde”, asseguraram. “Era apenas vinho, pronto a ser engarrafado!”. 

A autarquia de Castelvetro di Modena (na Emilia-Romagna, “zona vermelha” do surto da covid-19 em Itália) confirmou que a causa foi a falha nos sistemas do produtor, tendo o vinho corrido durante cerca de três horas em duas dezenas de casas próximas. As autoridades asseguraram também que não havia riscos para a saúde pública e que foram postos em prática os mecanismos de limpeza e verificação – tudo voltou rapidamente à normalidade.

Mas, claro, sendo que os tempos, pelo mundo e muito especialmente em Itália, são tudo menos “normais”, o município aproveitou o fenómeno para enaltecer o “lado humano” de todo o evento, incluindo a repercussão internacional. 

“Numa altura em que temos muito pouco para sorrir, fico feliz por termos trazido alguma alegria às pessoas”, disse a vice-presidente da câmara, Giorgia Mezzacqui, à CNN. “Espero que um dia mais tarde todos vocês se voltem a lembrar de nós e nos venham visitar”. “Estávamos todos as precisar de uma gargalhada”, escreveria depois.

Por entre a corrente de más notícias, o “milagre do vinho” é, de facto, apenas um fait-divers que se diria sem grande importância. Mas, como aponta a autarca de Castelvetro, é também um sinal da “nossa humanidade”. E nada como um toque de humor, aplicado ao instinto de sobrevivência (no caso via presente e futuro turismo) para ajudar a sobreviver a estes tempos difíceis: “Na região de excelência de Lambrusco Grasparossa, também trazemos vinho às torneiras das casas. Para quem ainda não teve tempo de encher o lava-loiças, oferecemos um delicioso copo de Grasparossa nas empresas da nossa região”.

A região é uma meca do enoturismo, muito visitada e dependente tanto do vinho como do turismo. Nos dias de hoje, confirmou a autarquia, cerca de 80% dos agentes da indústria turística receberam cancelamentos. A autarca rematou, emotivamente, o momento que as pessoas da região e do país vivem: “Precisamos da ajuda de todos para sobreviver”.

Para quem quiser ponderar a região para umas próximas férias, num futuro mais saudável, aqui fica o vídeo que resume orgulhosamente as atracções de Castelvetro di Modena. Foi partilhado precisamente na quarta-feira e a legenda diz: “Conheço um lugar de que gosto, chama-se mundo. Especialmente hoje, parece ser necessário lembrar isso”.

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