Depois da aliança com a extrema-direita, CDU ajuda esquerda radical a voltar ao poder na Turíngia

Partido de Merkel absteve-se para que o Die Linke mantenha a chefia do estado-federado, um mês depois de uma aliança com a AfD ter iniciado uma crise que culminou na renúncia de Kramp-Karrenbauer da liderança dos democratas-cristãos.

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Bodo Ramelow (Die Linke) foi reconduzido ao cargo de líder do governo da Turíngia EPA/FILIP SINGER

Um mês depois das repartições locais da União Democrata Cristã (CDU) e do Partido Liberal Democrata (FDP), na Turíngia, terem rompido o “cordão sanitário” imposto à Alternativa para a Alemanha (AfD), para afastar a esquerda radical da chefia do governo regional, dando origem a uma crise na sucessão de Angela Merkel, Bodo Ramelow, do Die Linke, foi reconduzido ao cargo de primeiro-ministro do estado-federado alemão, com a ajuda dos democratas-cristãos.

Ramelow foi reeleito na quarta-feira, à terceira votação, por 42 dos 90 deputados do parlamento da Turíngia, com os votos do Die Linke, Partido Social-Democrata (SPD) e Verdes, e com a abstenção, fundamental, da CDU. Assim, a esquerda continuará a liderar os destinos do governo do estado-federado até à realização de novas eleições, antecipadas, agendadas para o dia 25 de Abril.

Apesar de consubstanciar uma espécie de regresso à normalidade – ou seja, o retomar da exclusão da extrema-direita dos centros de decisão, acordada pelos partidos tradicionais alemães –, a recondução de Ramelow apenas ajuda a mascarar uma crise na CDU que, por se tratar do partido da consagrada chanceler alemã, Merkel, que abandona o cargo em 2021, ganhou contornos de crise nacional, ainda sem resolução à vista.

Na sequência da aliança entre CDU, liberais e a AfD para eleger o candidato do FDP, Thomas Kemmerich, como primeiro-ministro da Turíngia – ocupou o cargo durante 24 horas, demitindo-se e marcando novas eleições, devido à polémica –, a líder democrata-cristã, Annegret Kramp-Karrenbauer, anunciou que não será candidata a chanceler para o ano e que vai abandonar a chefia do partido em Dezembro.

Uma decisão que, a par das dificuldades reveladas por AKK – como é conhecida – em unir a CDU e em ultrapassar os recentes maus resultados eleitorais, também foi influenciada pela desautorização da repartição local do partido, na Turíngia, quando avançou à mesma para a aliança com a extrema-direita, depois de ter sido instada pela líder a não o fazer.

Desta vez, porém, a CDU local cumpriu as ordens e absteve-se para dar a mão ao Die Linke e afastar-se da AfD, que é liderada por Bjorn Höcke na Turíngia – um dos dirigentes mais radicais do partido, que um tribunal alemão autorizou, recentemente, que fosse referido como “fascista”.