Eles continuam os novelos que as avós começaram — com agulhas e um copo de vinho

Quatro amigos que já não conseguiam pousar as agulhas começaram a encontrar-se com quem queria relembrar o que aprendeu com as avós. Milhares de pontos e três encontros Knit and Wine depois, parece que há malhas que não se esquecem (e viciam). Afinal, “todas as mãos portuguesas têm uma ligeira queda para o tricot”.

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Quem foi que, um dia, “se lembrou de dar nós em fios e fazer roupa”? A pergunta fica suspensa num gole de vinho, o copo levantado depois de pousar as duas agulhas, tirar o fio de trás do pescoço e suspirar. Percebemos agora. “O que une esta sala é a frustração”, ri-se Gonçalo Vieira, 22 anos. “Porque é que eu não estou a conseguir fazer este ponto? Isto é uma força de união. Gera conversa, risos e discussão.”

No café Temporada, no Porto, há novelos lilás, azul-marinho, damasco, amarelo, todas as anteriores e espalhados por todo o lado. Aguardam para ser trabalhados, ora por pessoas que se sentam de costas muito direitas, os pés cruzados debaixo da mesa e as mãos ainda a encontrarem-se, hesitantes, ora por outras reclinadas na cadeira, sorrisos abertos centenas de pontos coloridos depois, zero sinais de abrandar. Na mesa mais silenciosa, um rapaz e uma rapariga estão a conhecer-se, as agulhas já esquecidas no colo e os copos a esvaziarem-se. 

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“Nós queríamos começar um convívio, estar no café com amigos a tricotar, aprender coisas novas e conversar ao mesmo tempo.” É assim que Gonçalo Vieira, escultor e artista plástico, apresenta o Knit And Wine, encontros descomprometidos para “partilhar saberes e celebrar a matéria-prima multifacetada que é lã”, organizados por Sara Brandão, Luísa Torres, Rafaela Santos e Gonçalo.

Os quatro começaram a perceber que, onde quer que fossem, levavam os novelos atrás. “Conseguíamos sentir os olhares curiosos”, conta Rafaela, a única que estudou na Escola Superior de Artes e Design (ESAD) de Matosinhos, e não na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde tiveram contacto (fugaz) com a técnica de malhas entrelaçadas. “Até porque não é normal entrares num café e veres pessoas a tricotar. Muitas vezes, principalmente pessoas mais velhas, parecia que perguntavam ‘Porque é que eles estão a fazer aquilo agora?’” Não há uma necessidade, comprámos tudo feito agora. Mas nós fazemos por gosto.” 

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No terceiro encontro Knit and Wine, na tarde de 29 de Fevereiro, o “dia extra do ano”, já venderam conjuntos de iniciação com novelos e agulhas circulares metálicas de seis milímetros (12 euros, que incluem também o pão de banana e vinho). Em Maio de 2019, criaram um evento no Facebook e juntaram-se num convívio-piloto num conhecido jardim na baixa do Porto. Com eles levaram toalhas, copos, um pacote de vinho, vontade de manter viva uma tradição, alguma lã e agulhas que espalharam pela relva e emprestaram a pessoas que se iam juntando. No segundo, aquando do Magusto, tiveram castanhas. “O bom é que nós temos doces e comida portuguesa associada a quase todos os dias do ano”, comenta Rafaela, 23 anos, confessa entusiasta das técnicas manuais e das tradições têxteis. De resto, “em vez de metros de scroll, fazemos metros de malha”, ri-se.

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Gonçalo, artista plástico de 22 anos, ensina a fazer um ponto de tricot. Paulo Pimenta

Na maior parte das vezes, eles continuam a malha onde as avós a deixaram. Muitas das 40 pessoas na sala, maioritariamente mulheres portuguesas e jovens, ainda aprenderam a tricotar ou a fazer crochet em criança. Há quem chegue sozinho ou com o aconchego das lãs no saco, quem traga as avós, a mãe ou o parceiro. Há pessoas que começaram a tricotar em edições anteriores, foram para casa descobrir novos pontos em tutoriais do YouTube e agora ensinam outras, até então, desconhecidas.

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Carolina Sandeman, estudante de moda na ESAD, trouxe para o primeiro encontro dois novelos e agulhas da avó que tinha guardados em casa há mais de dez anos. “Não foi um projecto muito consistente”, brinca, mas o pesado cachecol de lã teve direito a festejos quando o último remate foi orgulhosamente dado. “Começas a apreciar o processo e a dar mais valor à tua roupa”, reparou. Já comprou malha para a primeira camisola.

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Quando Sara Brandão começou a viver com a avó perguntou-lhe se podia voltar a ensinar o tricot à maneira portuguesa. “Queria passar mais tempo com ela mas, ao mesmo tempo, não queria que estivéssemos sempre a falar das mesmas coisas. Queria um passar tempo como quando eu era pequena”, lembra-se a autora e ilustradora, responsável pelo projecto recém-terminado A Voz dos Avós (dita por nós). "Eu gosto destes encontros também por isso. Sentes-te inerentemente ligado a alguma tradição. A partir do momento em que sabes fazer a mesma coisa que a tua avó, noutro registo e com outra finalidade, automaticamente sentes que é uma parte da tua cultura que sempre esteve lá e que só agora está a vir ao de cima. Todas as mãos portuguesas têm uma ligeira queda para o tricot.”

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